sábado, 27 de fevereiro de 2021

Interrogatório


O maior interrogatório da história

Jesus Cristo é o centro da história

HERNANDES DIAS LOPES

Referência: Mateus 22.41E, estando reunidos os fariseus, interrogou-os Jesus,

42  Dizendo: Que pensais vós do Cristo? De quem é filho? Eles disseram-lhe: De Davi.

43  Disse-lhes ele: Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo:

44  Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?

45  Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?

46  E ninguém podia responder-lhe uma palavra; nem desde aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo.


 INTRODUÇÃO

1. Quem é Jesus Cristo? 

Jesus Cristo é o centro da história. Ele é o Pai da eternidade, o criador, o sustentador, o redentor. Ele é o verbo que se fez carne. O Deus que se fez homem. O Santo que se fez pecado. O Bendito que se fez maldição. O rico que se fez pobre, aquele que preenche todas as coisas. Ele é o alfa e o ômega. Ele é o Senhor, o Rei dos reis, aquele que venceu a morte e triunfou sobre o diabo. Diante dele se dobra todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra.
E para vós, quem é Jesus? Eu creio que todos vós tendes uma opinião formada sobre Jesus. Já ouvistes sobre ele. Já lestes vários livros sobre ele. Nenhum personagem da história foi contemplado com tantas obras literárias. Jamais alguém influenciou tanto a humanidade.
O que pensais vós de Cristo? Em todos os séculos esta tem sido uma questão fundamental. Esse é o maior interrogatório da história. Não é o que pensais da IPB. Não é o que pensais do catolicismo. Não é o que pensais desta ou daquela doutrina. Mas o que pensais de Cristo?

2. Qual é o propósito da sua vinda? 

Ele deixou o céu, o seu trono de glória, a companhia dos anjos, querubins e serafins. Ele se esvaziou, se humilhou, tornou-se um bebê, um pobre carpinteiro, um humilde camponês. Ele não tinha onde reclinar a cabeça. Foi homem de dores, veio para morrer.
Ele carregou no seu corpo o nosso pecado. Foi perseguido, traído, negado, preso, acusado, espancado, cuspido, escarnecido, pregado na cruz. Ele sofreu o desamparo de Deus, a crueldade dos homens. Ele bebeu sozinho o cálice da ira de Deus que os pecadores merecem. Ele morreu pelos nossos pecados, veio para buscar o perdido, reconciliar-nos com Deus e justificar-nos diante do trono santo de Deus. Ele veio para salvar-nos.

3. O que vós pensais dele como Mestre? 

Aqueles que foram prendê-lo voltaram de mãos vazias e disseram: “Ninguém jamais falou como este homem”. Ele falava com autoridade e não como os escribas e fariseus. Ele se distinguia pela natureza dos seus ensinos, pela excelência do seu exemplo e pela riqueza de seus métodos. Ele não escreveu livros, mas transformou vidas. Ele não apenas ensinou a verdade, ele é a verdade. Ele não apenas foi o Mestre, mas foi o conteúdo do seu ensino. Ele não apenas foi o supremo profeta, mas é o conteúdo das profecias.

4. O que vós pensais dele como Médico? 

Ele andou por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo. Ele fez maravilhas, realizou o impossível: curou cegos, purificou leprosos, levantou os paralíticos, desimpediu a língua dos mudos e abriu o ouvido dos surdos. Ele ressuscitou os mortos. Ele devolveu a esperança àqueles cujos sonhos já estavam sepultados.
O QUE PENSAIS VÓS DE CRISTO? 

I. O TESTEMUNHO DA TERRA 

A. Os seus inimigos, o pensam dele? 

1. Os fariseus – Vós fariseus, que estivestes sempre espreitando o Cristo, com inveja dele, com malícia no coração, com desejo de apanhá-lo no contrapé, com perguntas capciosas, com projetos iníquos de matá-lo, O QUE PENSAIS DO CRISTO?
a) Ele recebe pecadores – Oh, sim, isto é verdade! Jesus foi amigo dos pecadores. Ele conversava com os proscritos publicanos, com os rejeitados pecadores, com as escorraçadas prostitutas. Ele acolhia e abraçava os párias. Ele toca os imundos leprosos. Esta é a nossa grande esperança! Esta é a verdade mais acalentadora do Cristianismo. Ele veio para os doentes. Ele veio buscar o perdido. Ele veio para gente que se sente arruinada, quebrada, falida. Ele veio para os falidos moralmente. Para aqueles que estão no fundo do poço.
b) Ele salvou os outros e a si mesmo não pode salvar – Sim, isto também é uma tremenda verdade. SE Jesus descesse da cruz, todos nós desceríamos ao inferno. SE Jesus descesse da cruz, jamais poderíamos subir ao céu. Ele não poupou a sua própria vida, para que fôssemos salvos. Ele morreu a nossa morte, para vivermos a sua vida.

2. Caifás – E vós Caifás, que tivestes inveja de Jesus, que conspirastes contra ele, que seduzistes o coração de Judas com dinheiro, que subornastes testemunhas falsas, que colocastes a máquina religiosa contra o Cristo, O QUE PENSAIS VÓS DO CRISTO?
a) Ele blasfema porque se diz Filho de Deus e vai voltar um dia nas nuvens – Oh! sim estás certa. Ele é mesmo a sua afirmação. Mas estais enganado. Ele não blasfema. Ele verdadeiramente é o Filho de Deus. Ele é o Deus eterno que se fez carne. Ele é o Deus Emanuel. O testemunho de Cristo a respeito de si mesmo não é falso. Ele é a verdade. Sim, ele vai voltar com grande poder e glória. AS nuvens serão sua carruagem. O mesmo Jesus que entrou em Jerusalém humilde, cavalgando um jumentinho, voltará entre nuvens, com grande poder e muita glória. Será acompanhado por um séquito de anjos! Oh que glória será!

3. Pilatos – E vós Pilatos, o pensais do Cristo, visto que tendes a tarefa de julgá-lo? O que pensais do Cristo, diante da pressão dos sacerdotes, da gritaria da multidão? “Eu não vejo nele crime algum”.

4. A mulher de Pilatos – E vós, mulher de Pilatos, que sonhastes com Jesus, o que pensais vós dele? O que tendes a dizer para o seu marido a respeito de Jesus? “Não te envolvas com este justo”.

5. Judas Iscariotes – E vós Judas, que fostes apóstolo de Cristo, que vistes os seus milagres, que ouvistes suas palavras, que vistes seu exemplo. Vós que traístes a Jesus, que o vendestes por trinta moedas de prata, que o entregastes aos soldados romanos usando o beijo traidor, O QUE PENSAIS VÓS DO CRISTO? “Eu trai sangue inocente”.

6. Centurião – E vós, centurião romano, que estivestes presente na crucificação de Jesus e que mandastes os soldados romanos açoitarem-no com violência, que ordenastes aos soldados para o pregarem na cruz, que vistes o Cristo sendo suspendido na cruz, O QUE PENSAIS DELE? “Verdadeiramente ele era o Filho de Deus”.

7. Juliano, o apóstata – E vós Juliano que perseguistes os cristãos, que intentavas varrer da terra o Cristianismo. Vós que marchavas para a guerra contra os persas em 363 d.C., tão seguro da vitória e abusava dos soldados cristãos, o que pensais vós do Cristo? “Vencestes ó galileu”. – “o meu carpinteiro está fazendo um caixão para o seu imperador”.

8. John Lenon – E vós John Lenon que dissestes que os Beatles eram muito mais famosos do que Jesus Cristo e que dissestes que o Cristianismo passaria. O que pensais vós do Cristo. Os Beatles se separaram. John Lenon morreu e Jesus continua no Trono.

9. Um dia todos os inimigos de Cristo vão reconhecer que ele é o Senhor – Um dia Hitler dobrará os joelhos diante de Jesus Cristo, o nazareno. Da mesma forma Marx, Lenin, Stalin, Mao Tsé Tung, Fidel Castro, Lula.
B. O que os seus amigos pensam do Cristo 

1. João Batista, o precursor – E vós, João Batista, que sois o seu precursor, o que pensais do Cristo? “Ele é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Ele é o Filho de Deus, o que batiza com o Espírito Santo”.

2. Pedro – E vós, que negastes o Cristo e por isso muito chorastes, o que pensais do Cristo? Vós que o vistes no Monte da Transfiguração, vós que fostes crucificado de cabeça para baixo, por vos achares indigno de ser morto como Jesus, o que pensais dele? “Ele é o Cristo, o Filho do Deus vivo” – “Só ele tem as palavras da vida eterna” – “Sim, o Jesus que foi crucificado, Deus o ressuscitou e o fez Senhor e Cristo” – “Agora não há salvação em nenhum outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos”.

3. João – E vós discípulo amado, que vos reclinastes no peito de Jesus, o que pensais dele? “Ele é o verbo que se fez carne” – “Ele é o Alfa e Ômega, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores”.

4. Tomé – E vós Tomé, que andastes com Cristo, vistes os seus milagres, ouvistes os seus ensinos, mas duvidastes a princípio da sua ressurreição, quando ele se fez presente entre os discípulos, o pensais do Cristo? “eu me prostrei e adorei e disse-lhe: Senhor meu e Deus meu”.

5. Paulo – E vós Paulo, que antes perseguias a Cristo e sua igreja, que fostes convertido no caminho de Damasco, que dedicastes vossa vida para percorrer o mundo pregando o Evangelho, o que pensais vós do Cristo? “Ele é a minha vida. Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” – “Já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim” – Ele é a minha esperança – Ele é a minha vida – Ele é tudo em todos – Dele, por meio dele e para ele são todas as coisas. Ele é o Senhor – Deus o exaltou sobremaneira e deu-lhe o nome que está acima de todo nome para que ao nome de Cristo se dobre todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra.

II. O TESTEMUNHO DO INFERNO 

1. Os demônios – E vós, demônios, que o tendes visto antes da vossa queda, que fostes expulso do céu, que andais oprimindo os homens, pervertendo os corações, fazendo estragos terríveis na história, O QUE PENSAIS VÓS DO CRISTO? “Apareciam gritando: Jesus Filho do Deus Altíssimo, viestes atormentar-nos antes do tempo?”. Para os demônios Jesus é o Filho de Deus, o Santo, Jesus é o atormentador dos demônios. Ele se manifestou para destruir as obras do diabo (1 Jo 3:8). Ele triunfou sobre o diabo e suas potestades na cruz. Ele os despojou e os expôs publicamente ao desprezo. Jesus é aquele que esmagou a cabeça da serpente. Jesus é aquele diante de quem todo joelho vai se dobrar no céu, na terra e no inferno.

2. Os perdidos e condenados que rejeitaram a Cristo – E vós, que a despeito de ouvirdes a mensagem da salvação rejeitastes a Cristo, O QUE PENSAIS VÓS DO CRISTO? Vão pedir: “Senhor, Senhor, abra-nos a porta.” Vão clamar, “Senhor refresca a minha língua porque estou atormentado nessas chamas”. Vão reconhecer tarde demais que Jesus é o único Salvador. Vão procurar fugir da presença e da ira do Cordeiro, vão desejar a morte, mas a morte não porá fim ao sofrimento deles. Serão banidos para sempre!

III. O TESTEMUNHO DO CÉU 

1. O testemunho do Pai – E vós, Deus Pai, O QUE PENSAIS DO CRISTO? 1) Ele é o meu Filho Amado, em quem me comprazo; 2) Ele é meu Filho amado, a ele ouvi. Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo nome. Ele é o herdeiro de todas as coisas. O Senhor do universo. O juiz de vivos e de mortos.
2. O testemunho do Espírito Santo – E vós, Espírito Santo, supremo consolador, O QUE PENSAIS VÓS DO CRISTO? Eu vim para o mundo para ser o outro consolador. Eu vos farei lembrar tudo o que ele vos disse. Eu vim para dar testemunho dele. Eu vim para glorificá-lo. Eu vos guiarei a toda a verdade. Jesus é a verdade. Eu vos convencerei do pecado para que possais crer em Cristo.
3. O testemunho do próprio Jesus – E vós, ó Cristo, O QUE PENSAIS DE VÓS MESMOS? Eu sou o pão da vida. Eu sou a luz do mundo. Eu sou a porta. Eu sou o bom pastor. Eu sou a ressurreição e a vida. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Eu sou a videira verdadeira. Eu sou o Mestre e o Senhor. Eu e o Pai somos um. Eu sou o verbo que se fez carne. Eu sou o criador do universo, o salvador do mundo, o Messias prometido, o doador da água da vida, o perdoador de pecados, a única esperança da humanidade.
4. O testemunho dos anjos – E vós anjos que assistis diante do trono de Deus, O QUE PENSAIS VÓS DO CRISTO? Oh, Ele é o Salvador, o Cristo, o Senhor que nasceu em Belém. Ele ressuscitou dos mortos e não está mais no túmulo. Ele voltará do mesmo jeito que foi para o céu. “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor” (Ap 5:12).
5. O testemunho dos remidos no céu – E vós, remidos de Deus, que já estais na glória, O QUE PENSAIS DO CRISTO? “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no torno, e ao Cordeiro, pertence a salvação (Ap 7:9,10).

CONCLUSÃO 

Ou Jesus é o Filho de Deus, ou então ele foi um louco desvairado, porque dizendo-se santo, sem pecado, afirmou ser quem não era. Mas, o inferno, a terra e o céu nos comprovam que Ele é o Filho de Deus, o Salvador.
Agora, sendo ele o Filho de Deus, o único salvador, como você vai escapar se o rejeitar? Você não pode ficar neutro diante dele: Quem não é por ele, é contra ele.
Você gostaria hoje de recebê-lo como seu salvador e Senhor? Quer dobrar hoje os seus joelhos e render-se a ele? Hoje ele quer ser o seu Advogado, amanhã será o seu Juiz.
Hoje ele oferece descanso para a sua alma. Hoje ele lhe dá a água da vida. Hoje ele é o caminho para os seus pés, a verdade para a sua mente, a vida para a sua alma. Hoje ele quer reconciliar você com deus. Hoje seus braços estão abertos e ele lhe convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei”.

Você quer fazer isso agora?

Ilustração: O general Lee Wallace aconselhado por Robert Ingersoll para escrever um livro mostrando que Jesus era um mito. A medida que pesquisava, tornava-se cada vez mais atônito. Estava extasiado em descobrir que o Jesus de Nazaré era de fato o Filho de Deus. Certa madrugada, Wallace dobrou seus joelhos e recebeu a Cristo como Senhor da sua vida. Foi ao quarto onde estava sua esposa e ali choraram. Ela já orava por ele. Ele escreveu seu livro em 1880. O livro não apresentou Jesus como um mito. Seu livro? Bem Hur. O filme, baseado no livro recebeu em 1959 onze prêmios, um grande récorde.
E você vai se render hoje ao nome de Jesus?!

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A Benção


 

A bênção da decepção


Daniel Lima

Adão confiou em Eva, a ponto de ignorar uma ordem que conhecia e aceitar dela o fruto proibido. Abel confiou em Caim, a ponto de ir com ele ao campo onde foi morto. José confiou nos irmãos, a ponto de ir sozinho encontrá-los no local onde foi vendido aos mercadores. Eu poderia continuar. A história é repleta de decepções. Na verdade, tenho certeza de que a sua vida também tem muitos episódios de decepções com pessoas.

Decepções são diretamente proporcionais ao quanto confiamos nas pessoas. Apesar de entristecido, eu não fico decepcionado ao ouvir de crimes e erros cometidos por estranhos. No entanto, quando alguém que conheço (especialmente se eu admiro a pessoa) comete um erro ou peca contra mim, minha decepção pode ser paralisante. Decepções são tão fortes quanto minhas expectativas e confiança no outro.

Há três reações diante de decepções. A primeira é continuar confiando ingenuamente, achando que o ocorrido foi uma exceção e que a próxima pessoa em quem eu confiar não vai me decepcionar. Essa reação tem vida curta, pois a próxima decepção desafia minha capacidade de voltar a confiar. Há, no entanto, um processo curioso em que algumas pessoas que foram decepcionadas podem continuar buscando quase obsessivamente uma nova relação com alguém em quem possam confiar. Assim, no próximo relacionamento a pessoa se entrega cegamente, crendo que este será, sim, o relacionamento seguro e confiável que tanto buscava. 

Uma confiança cega na nobreza humana vai, fatalmente nos levar às mais profundas decepções.

O profeta Jeremias comenta sobre essa tendência humana em Jeremias 17.5: “Assim diz o Senhor: ‘Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor’”. Uma confiança cega na nobreza humana vai, fatalmente nos levar às mais profundas decepções. O profeta se apressa a firmar no verso 7 do mesmo capítulo: “Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está”. Uma confiança excessiva em pessoas é mais do que ingenuidade, é engano; é confiar em alguém que é falho como nós e não será sempre íntegro. Precisamos contar com as imperfeições humanas.

Uma segunda opção, talvez a mais frequente, é desenvolver uma postura de desconfiança ou mesmo amargura generalizada. A partir dessa posição a pessoa começa a se manter distante de qualquer relacionamento, temendo sempre a próxima decepção. Tais pessoas acabam por desenvolver um estilo de vida de isolamento, usando as mais variadas desculpas. Posto que fomos criados para nos relacionarmos, quem opta pelo isolamento defensivo está cortando o tubo de oxigênio e de significado de sua vida. Por um lado, terão sucesso (não terão muitas novas decepções); por outro, viverão as antigas decepções ou possíveis decepções e desconfianças em sua mente que as bloqueiam de um novo e frutífero relacionamento. Para isso o autor de Hebreus tem uma forte exortação em Hebreus 10.24-25:

E consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia.

A Palavra de Deus afirma que o isolamento não deve ser uma opção. Não é um caminho de vida. Como afirmamos acima, fomos criados para relacionamentos e somente neste contexto seremos tudo aquilo que Deus deseja que sejamos.

Mas há, pela misericórdia de Deus, uma terceira opção: é quando a decepção abre o caminho da graça! E é neste momento que a decepção se torna uma benção. O fato é que – como crianças – temos uma visão idealizada e otimista das pessoas. Mesmo crianças que crescem em ambientes abusivos têm uma expectativa de que as pessoas ao seu redor vão amá-la, cuidar dela e dar-lhe valor. No entanto, a realidade é que o homem, embora ainda manifeste a imagem de Deus, o faz de forma distorcida. Ou seja, em tudo que o homem faz, por mais belo e nobre, há sempre uma mancha de corrupção que chamamos de pecado.

Erros trazem consequências, mas a graça de Deus pode restaurar um relacionamento em que houve decepção.

Embora triste, esta realidade não impediu Deus de nos amar e de enviar seu filho para morrer por nós (João 3.16). Nossa salvação não se baseia em nossa bondade ou merecimento. Pelo contrário, Jesus morreu por nós enquanto éramos pecadores e rebeldes (Romanos 5.1). É nesse sentido que a decepção pode nos levar a um caminho saudável e mesmo agradável. Ao perceber o pecado no outro, eu posso suspirar e aceitar que essa é a realidade de todo ser humano. Uma vez encarada tal realidade, por um lado estou livre de minhas falsas expectativas de perfeição ou lealdade inabaláveis; por outro, sou livre para amar o outro apesar de suas falhas.

Talvez o maior exemplo desse princípio seja a parábola do filho pródigo (ou dos dois filhos perdidos) em Lucas 15.11-32. Quando o filho mais novo “cai em si” (verso 17), ele retorna à casa do Pai e é acolhido, mesmo sem ter provado uma mudança de vida. Este filho havia decepcionado seu pai no mais profundo sentido. O pai o acolhe, pois entende sua humanidade, seus erros e se alegra com a possibilidade de uma relação restaurada.

Permita-me algumas dicas sobre decepções a partir desta breve reflexão:

1. Não confie demais em pessoas. As intenções podem até ser boas, mas a dinâmica de seus corações certamente vai levá-la a decepcioná-lo em algum momento.
2. Diante de uma decepção, não ignore o erro (alienação) nem corte relações com a pessoa. Nosso Deus nos acolhe ao nos arrependermos.
3. Entenda que erros trazem consequências, mas a graça de Deus pode restaurar um relacionamento em que houve decepção.
4. Por fim, há relacionamentos em que o outro tem uma prática habitual de se aproveitar dos demais. Mesmo quando fala de arrependimento, logo volta à prática pecaminosa. Nestes casos, mantenha a porta do relacionamento aberta, mas estabeleça limites para proteger-se de possíveis novos abusos.

Minha oração é que, diante das decepções que você tem enfrentado e vai enfrentar, a graça de Jesus, o amor do Pai e o consolo do Espírito Santo sejam seus guias.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Orando a Palavra


 

AS ORAÇÕES DE JESUS

 

Todas as orações de Jesus deveriam se tornar as orações de todos os cristãos. Orando as orações de Jesus, envolvemo-nos na mais elevada forma de discipulado. Para o discípulo é suficiente ser como seu mestre, e o escravo, como seu senhor (Mateus 10:25). Jesus não somente orava mais do que qualquer outra pessoa, mas as suas orações também se diferenciavam de todas as demais orações da Bíblia.

Muito embora fosse plenamente humano, Ele já tinha um conhecimento perfeito, tanto das palavras como do propósito das Escrituras desde sua infância. Assim sendo, quando Ele estava no templo, com os seus tenros doze anos de idade, conseguiu dialogar com os seus mestres de tal forma que todos que o ouviam se admiravam de seu entendimento e de suas respostas (Lucas 2.47).

A medida que crescia, Jesus ia a lugares solitários para orar (veja Marcos 1:35). Ele orava com tanta intensidade que as suas orações vinham em alta voz e com lágrimas (Hebreus 5.7). Uma vez Ele orou tão fervorosamente que seu suor caía na terra como gotas e sangue (Lucas 22.44). O estilo de vida de oração que Jesus nos deu como modelo quase nunca foi tocado pela maioria os cristãos. Mas, quando as orações de Jesus são oradas de volta Para Ele, lentamente passamos a entender o que Ele Obviamente sabia sobre o poder da oração. As palavras o dirigirão às experiências de oração Dele, e, então, à de Filho que Ele mesmo desfrutava com o seu Pai.

Vemos assim que Jesus estabeleceu um relacionamento com Yahweh que era radical para a sua época. Até aquele momento, ninguém na história jamais havia se dirigido ao Senhor Deus Todo-Poderoso da forma como Jesus o fazia. Os judeus devotos tinham medo até mesmo de usarem o nome de Deus, Yahweh. Temiam tomar o seu nome em vão. Para evitar isso, minuciosos sistemas foram estabelecidos para que os judeus pudessem se referir a Yahweh sem de fato pronunciarem o seu nome. Os judeus diziam Adonai, que significa “meu Senhor”. Mais tarde no período medieval, as vogais de Adonai foram anexadas às consoantes y, h, w e h, resultando na palavra Jehovah. Portanto, foi um enorme choque o fato de Jesus aparecer da extremidade oposta e dirigir-se a Deus como Aba Pai ou Querido Papai (veja Marcos 14.36). Esse termo carinhoso não era nada menos do que revolucionário. Nem mesmo os escravos podiam dirigir-se ao dono da casa como Aba, porque esse termo era considerado pessoal demais. Normalmente, apenas as crianças pequenas usavam essa palavra inocente e comum, referindo-se aos seus próprios pais. Mas um judeu jamais se dirigiria a Deus de uma forma tão familiar assim. Portanto, Jesus estava abrindo aporta a um nível totalmente novo de intimidade ao instruir os seus discípulos a orarem: Pai nosso que estás no céu (Mateus 6:9). Jesus nos introduz em um novo relacionamento com Deus — que se assemelha à intimidade e familiaridade entre um papai e seu filhinho.

As orações de Jesus também são únicas no sentido de que Ele ainda está orando essas orações hoje. O autor de Hebreus nos encoraja, dizendo: Mas, visto que ele vive para sempre, seu sacerdócio é permanente, Portanto, ele é capaz de salvar de uma vez por todas aqueles que se aproximam de Deus por meio dele. Ele vive sempre para interceder em favor deles (Hebreus 7.24, 25). Num sentido bastante real, Ele está orando por você neste exato momento. A oração de Jesus por Pedro torna-se um exemplo de que Ele está orando por nós agora. Naquela ocasião, Jesus disse a Pedro: Simão, Simão, Satanás pediu [intimou para juízo] para peneirar cada um de vocês [plural] como trigo. Contudo, supliquei em oração por você [singular], Simão, para que sua fé não vacile (Lucas 22.31 ,32). Jesus não estava dizendo que apenas Pedro seria provado e testado, Ele estava indicando que todos os 12 discípulos seriam testados e provados e que Ele orava por todos. No entanto, Ele orou por Pedro especificamente, ao dizer: Supliquei em oração por você… Portanto, quando tiver se arrependido e voltado para mim, fortaleça seus irmãos (Lucas 22.32). Pelo fato de Jesus ainda estar vivo e interceder por nós, essa oração refere-se a todos nós que, de maneira semelhante, somos escolhidos para passarmos por tribulações e provações. Quem dentre nós não precisa da contínua e incessante intercessão de Jesus? Falando na prática, poderíamos fazer - uma substituição e colocar os nossos próprios nomes nas de Jesus ou orá-las por nossos próprios discípulos. Portanto, quando você estiver orando as orações de Jesus, estará se unindo a Ele em sua intercessão celestial. maneira, as orações de Jesus são tao relevantes hoje foram ao ser oradas pela primeira vez.

Contudo, ainda há outras formas de abordarmos essas orações. Quando começamos a orar as orações de Jesus, começamos orando o texto literalmente, concordando com nos contextos histórico e teológico das pessoas e coisas pelas quais Ele orou. Quando Ele ora pelos seus discípulos, pedindo a Deus por algo, você também pode adotar o mesmo contexto histórico. Comece as suas próprias orações lembrando-se, simplesmente, dos 12 discípulos que estavam com Ele durante o seu intenso ministério e da igreja que surgiu do testemunho deles. Quando você ora a oração de Jesus: Glorifica teu Filho, para que ele te glorifique (Jo 17. l) você está concordando com Jesus e continuando a orar pela manifestação da glória do Filho. Pode ser uma simples oração de concordância, pela qual também ansiamos que Jesus seja glorificado hoje, que a sua vida e paixão continuem a glorificar o Pai agora. Dessa forma, estaremos orando hoje pelas mesmas coisas que Jesus orava em sua época.

Num nível mais profundo, à medida que o intercessor continua orando essas orações vez após vez, dizendo as mesmas palavras que Jesus disse, torna-se mais aparente a forma como Jesus pensava. O que Jesus estava pedindo? Quais eram as suas preocupações? Orando as suas palavras, entramos em sua mente e em seu espírito — a sua paixão, Em pouco tempo, as suas preocupações tornam-se as nossas preocupações, e as suas palavras, as nossas palavras. Enquanto isso acontece, podemos começar a aplicar as mesmas orações à nossa própria vida. Também podemos pedir que Deus seja glorificado em nossa vida por meio das nossas ações, Podemos pedir que a sua vontade seja feita em nossas escolhas. Podemos orar por nossa própria família, amigos e entes queridos da mesma maneira que Jesus orava pelos seus discípulos, As suas preocupações relação a seus discípulos eram sobre proteção e unidade (veja João 1 7,11, 12), sobre alegria no meio de um hostil (veja João 17,13-16) e para que a santidade prática crescesse pela Palavra da verdade (veja João 17.17-19). E um pequeno passo para qualquer cristão consagrado transformar esses textos clássicos em orações básicas por seus próprios discípulos. Uma vez mais, vemos a aplicação das orações de Jesus em nossa própria vida.

Além disso, orando as orações de Jesus como se fossem as nossas próprias orações, tornamo-nos tipos de Cristo (“ungidos”) pedindo essas coisas a Deus para nós mesmos. Como foi mencionado anteriormente, Jesus desfrutava de um lugar especial como Filho de Deus, e, como tal, conversa- a com Deus com uma ousadia desconhecida por outros. João 17 está repleto de assuntos que o cristão comum jamais ousaria proferir. Mas, à medida que oramos essas palavras, lentamente começamos a nos dar conta de que assim como tu [o Pai] me enviaste [o Filho] ao mundo, eu [Jesus] os envio [todos os cristãos] ao mundo (João 17.18). Nós devemos fazer o que Jesus fez, porque Jesus nos deu a h mesma glória que o Pai lhe deu (veja João 17.22). Portanto, nós também deveríamos glorificar o Pai com a nossa vida, exatamente como Jesus fez com a Dele (veja João 17.1). Uma vez que o Pai concedeu a Cristo autoridade sobre todas as pessoas, Jesus, por sua vez, é capaz de dar aos seus seguidores autoridade para saírem em seu nome e chamarem os outros à vida eterna em Cristo Jesus (veja Mateus 28.18). O fato de orarmos as orações de Jesus permeia e inspira o nosso espírito com o entendimento de que toda a nossa vida deve seguir o padrão de toda a vida Dele. Também vemos que temos um trabalho a realizar à medida que nos movemos na direção da nossa própria paixão, quando nós também seremos ressuscitados incorruptíveis e com um corpo glorioso, O Pai nos glorificará quando formos a Ele (veja I Coríntios 15.40-42). Paulo até mesmo ora para que conheçamos, com um conhecimento íntimo, a esperança, a herança e a suprema grandeza de seu poder para conosco, os que cremos. E o mesmo poder grandioso que ressuscitou Cristo dos mortos e o fez sentar-se no lugar de honra, à direita de Deus, nos domínios celestiais (Efésios 1. 19,20).

Isso é fantástico! O poder que ressuscitou Jesus dentre os mortos e trouxe glória ao Pai é o mesmo poder que está em nós agora, enquanto estamos vivos! Orar as orações de Jesus nos leva ao lugar em que Jesus estava, ao lugar onde Ele deseja que estejamos.

Posteriormente, ao orarmos as orações de Jesus, estaremos moldando a nossa vida segundo a Dele. Pedro disse: Porque Deus os chamou para fazerem o bem, mesmo que isso resulte em sofrimento, pois Cristo sofreu por vocês. Ele é seu exemplo; sigam seus passos (l Pedro 2.21). A palavra “exemplo” vem da palavra composta grega hupo, que significa “embaixo” e grammos, que significa “escrita” — literalmente, um “subscrito, assinatura”. A vida de Jesus é o protótipo ou o padrão, a matriz de onde nós, como cristãos, delineamos a nossa vida. Somos seus imitadores. E, no início da nossa caminhada cristã, nada melhor que substituirmos os pronomes das Escrituras pelo nosso nome, o que torna mais pessoal o fato de orarmos e recitarmos as Escrituras. Enchendo o nosso coração e a nossa boca com as próprias palavras de Jesus, a sua essência se forma em nós, Começamos a crer que realmente somos cristãos – pequenos Cristos cujo propósito é vivermos a mesma vida sobrenatural e milagrosa que Jesus viveu.

Por fim, incluímos “A Oração a Jesus”, que se desenvolveu a partir do desejo de seguirmos o mandamento bíblico de orar sem cessar. Ela recebeu vários nomes ao longo da história da igreja, como, por exemplo, “oração da respiração”, “oração centralizadora”, “oração monástica” e oração contemplativa”. Muito embora existam diferentes nomes e nuanças, a essência desse estilo de oração é a mesma. E uma forma de oração extremamente simples e pura, que nos leva à presença de Deus. Qualquer pessoa pode usar esse método, porque é uma oração baseada na experiência, e não no intelecto. Moisés disse, certa vez, ao Senhor: Se não nos acompanhares pessoalmente, não nos faças sair deste lugar (Êxodo 33.15). Numa só sentença, Moisés capturou o anseio da “Oração a Jesus”. O seu / desejo é permanecermos constantemente na presença manifesta de Deus. Essa sublime meta de oração perpétua é alcançada de uma forma bastante simples. O autor de The Cloud of Unknowing [“A nuvem do desconhecido”] diz: “Uma palavra de uma sílaba, como, por exemplo, ‘Deus’ ou ‘amor’, é melhor. “1 Repetindo-se uma palavra Z/ ou frase vez após vez até que se torne para nós tão natural quanto o nosso respirar, o nosso espírito fica tão imerso na comunhão com Deus que conseguimos descansar à sombra do Todo-poderoso (Salmo 91. l), permanecer Nele, a videira (Jo 15.4) e nunca deixar de orar (l Tessalonicenses 5.17).

Esse método de oração originou-se na época dos Pais do Deserto e foi incorporado à tradição grego-ortodoxa mais tarde. As três ou quatro frases simples que os Pais do Deserto escolheram para orar vieram de uma parábola que Jesus contou em Lucas 18,9-14. Mais tarde, ela foi modificada para que se dirigissem ao Senhor Jesus, e daí veio o título “A Oração a Jesus”. A oração é a seguinte: “Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” Pequenas diferenças podem trazer mudanças no sentido de que você pode dirigir a oração ao nosso Senhor Jesus Cristo ou você pode omitir a palavra “pecador”. Mas, no final, é uma frase ou pensamento simples, sutil como uma respiração, que requer foco para dirigir a mente a fim de afetar o coração, e, em última análise, mover o espírito.

Uma excelente ilustração disso encontra-se em The Way of a Pilgrim [“O Caminho de um peregrino”], uma linda história de um camponês russo que estava buscando a resposta de como orar sem cessar. Depois que o seu mentor lhe disse para orar “A Oração a Jesus” até 12 mil vezes por dia, ele finalmente tornou-se um perito nisso e foi então arrebatado à presença de Deus. Ele descreve a sua experiência, dizendo:

Depois de receber essa instrução, passei o resto do verão recitando o nome de Jesus vocalmente e gozei de grande paz. Enquanto eu dormia, frequentemente sonhava que estava orando. E, se por acaso me deparasse com pessoas durante o dia, todas elas me pareciam parentes, muito embora eu não as conhecesse. Os meus pensamentos haviam me sossegado completamente; eu pensava somente na oração à qual o meu coração começou a ouvir, e o meu coração mostrou um certo calor e alegria… A minha cabana solitária era para mim um esplêndido palácio, e eu não sabia como agradecer a Deus por enviar a mim, um grande pecador, um ancião tão santo assim para me conduzir. Assim sendo, agora ando e oro a Oração a Jesus sem cessar, e isso é mais precioso para mim do que qualquer outra coisa do mundo. Ando num estado semiconsciente, sem preocupações, interesses e tentações. O meu único desejo e atração é por solitude e incessante recitação da Oração a Jesus, Isso me deixa feliz. Deus sabe o que tudo isso significa. (HELEN, Bacovcin, trans., The Way of a Pilgrim: A Classic of Orthodox Spirituality [“O caminho de um Peregrino: Um Clássico da Espiritualidade Ortodoxa”] (New York: Image Books, 1978), págs. 23, 24)

Dessa maneira, se estivermos nos movimentando na direção da experiência de comunhão contínua com Deus, orando “A Oração a Jesus” ou entrando na mente de Cristo, por meio das mais extensas e didáticas orações de Jesus, devemos seguir a -Jesus em seu exemplo de oração. Ele nos ensinou a orar por palavras e ações. Portanto, todas as orações de Jesus deveriam se tornar as orações de todos os cristãos.

Trecho extraído livro produzido pela ORVALHO.COM – CAMPBELL, WESLEY E STACEY. ORANDO A PALAVRA  p. 167 – 175

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Mudanças


 

Como reagir a mudanças?


Daniel Lima

Nunca velejei, mas sempre fiquei encantado com o modo como um velejador consegue trabalhar com o vento e se dirigir ao seu destino mesmo que o vento não seja favorável. Entre as poucas certezas que podemos ter em nossas vidas, uma delas é que vamos enfrentar mudanças. E essas mudanças serão surpreendentes, tirarão nosso fôlego e abalarão nossas certezas e planos. Este último ano foi palco de muitas mudanças. E isso não é fruto só da pandemia! Valores, ideias, certezas “inabaláveis” estão sendo questionadas constantemente. Algumas mudanças são perversas e demonstram como o coração do homem está longe de Deus, mas outras são resultado de estudo, descobertas e daquilo que chamamos “graça comum”.

A pandemia, como toda catástrofe, acelerou algumas mudanças que já se apresentavam no horizonte. Por exemplo o “home office”, ou trabalhar em casa. Conheço muita gente que neste último ano se adaptou para conduzir seu trabalho de casa e hoje descobriu que este pode ser tão bem conduzido, às vezes até melhor, a partir de sua própria casa. Muitas escolas tiveram que alterar rapidamente para uma educação à distância e têm obtido resultados excelentes, muito embora muito ainda precise ser feito.

Muito do que estávamos acostumados como igrejas evangélicas teve de ser adaptado durante a pandemia. Encontros e eventos tiveram de ser transformados em atividades online. Igrejas que não puderam fazer a transição ficaram esvaziadas. Não poucos líderes estão ainda hoje sem saber como retomar seus ministérios. Há aqueles que fecham os olhos e continuam exatamente da mesma maneira, crendo que se Deus abençoou um método antes, ele certamente abençoará de novo – o que chamam de fidelidade. Outros adotam novas posturas, tentam aproveitar novidades e modismos. Por fim há aqueles que percebem as mudanças, querem aprender com estas, embora ainda valorizem métodos antigos. Estes entendem que fidelidade, muito acima de ater-se a uma forma, é descobrir como continuar o ministério preservando o que é inegociável.

Fidelidade diante de mudanças é mudar o que precisa ser mudado para preservar o que não pode ser mudado.

Quando mudanças tão abrangentes ocorrem, todos voltamos à estaca zero, ou seja, aquilo que nos levou ao resultado desejado ontem não garante o fruto de amanhã. Os exemplos bíblicos de pessoas tementes a Deus que foram lançados em situações de mudança são inúmeros: Adão e Eva tiveram de se adaptar a um mundo hostil. José teve de aprender os costumes egípcios. Davi teve de se tornar um líder de homens e eventualmente de uma nação. Ester teve de aprender a viver como rainha. Neemias teve de se tornar o reconstrutor de uma cidade arrasada. No Novo Testamento, homens como Pedro, Zaqueu, Cornélio e João tiveram de abandonar não só seus estilos de vida, mas grande parte do que acreditavam.

Diante de mudanças, é natural ficarmos confusos e, de alguma forma, nos agarrarmos ao passado. Fidelidade diante de mudanças é mudar o que precisa ser mudado para preservar o que não pode ser mudado. Talvez o personagem que mais nos deixou suas reações diante de mudanças foi Paulo. Em Filipenses 3 ele escreve sobre como todo seu passado e seus distintivos de glória se tornaram inúteis. Lemos no verso 7: “Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo”. O que era lucro, o que lhe dava significado e valor, agora era inútil. Mais adiante, lemos nos versos 13-14:

Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

Gostaria de compartilhar algumas observações sobre como reagir a mudanças, seja em nosso trabalho, em casa, na igreja ou mesmo na minha caminhada com o Senhor:

1. Identifique a essência. Paulo afirma que prosseguia para o alvo. Qual é o alvo? O que realmente importa? O que é mais importante em seu relacionamento com alguém: manter tradições ou viver em comunhão? Em nossos ministério, o que realmente buscamos: manter programas vivos ou alcançar pessoas para Jesus? Não podemos abrir mão da essência em tempo de mudança, já a forma pode (e talvez deva) ser adaptada ou reinventada.

2. Esqueça o que ficou para trás. Somos criaturas de costumes, nossa tendência é nos apaixonarmos por hábitos. Certamente não foi algo fácil para Paulo dizer que deixou para trás toda sua tradição como fariseu. Para seguirmos a Deus, com frequência, precisamos abandonar formas que nos eram muito queridas e confortáveis.

3. Descubra como continuar avançando. Não é possível manter a essência sem uma forma. Se a antiga maneira de fazer não serve mais, precisamos descobrir de que maneira podemos preservar o que é realmente importante. Se uma forma de manter comunhão com irmãos em Cristo não funciona mais, precisamos descobrir como manter comunhão de outra forma.

4. Cultive sua dependência daquele que não nos abandona. Em vários de seus escritos Paulo deixa claro que seus esforços não se baseiam em suas próprias capacidades. Sua confiança estava naquele que podia cuidar dele e capacitá-lo para enfrentar com vitória todas as situações em que Deus o colocasse. Lemos em Colossenses 1.29: “Para isso eu me esforço, lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim”.

Minha oração por você e por mim, nestes tempos de mudança, tanto externa como interna, é que nossos corações continuem a olhar para Jesus, o autor e consumador de nossa fé, e que possamos reagir a mudanças com leveza, sem apegos desnecessários, mas igualmente sem abrir mão daquilo que é essência: “‘Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’” (Lucas 10.27).