segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Estender a mão


ESTENDER A MÃO

Chegando Davi a Maanaim, Sobi, filho de Naás, de Rabá, dos filhos de Amom, e Maquir, filho de Amiel, de Lo-Debar, e Barzilai, o gileadita, de Rogelim, tomaram camas e bacias, e vasilhas de barro, e trigo, e cevada, e farinha, e grão torrado, e favas, e lentilhas, também torradas, e mel, e manteiga, e ovelhas, e queijos de vacas, e os trouxeram a Davi e ao povo que com ele estava, para comerem, porque disseram: Este povo no deserto está faminto, cansado e sedento.
2 Samuel 17:27-29
Davi chegou a Maanaim cansado: estava fugindo de Absalão. Considerando os versículos acima, talvez admira-nos que Deus compartilhe tantos pormenores desta “pequena ocorrência”. Disso deduzimos quão precioso é, aos olhos de Deus, quando de coração prestamos assistência ao seu povo nas suas necessidades exteriores, e também nas suas aflições interiores. Mas, vejam só: os três homens que aqui prestaram assistência nos são mencionados por nome e endereço!
Se nós tivéssemos que relatar a ajuda que prestaram, talvez diríamos apenas que foram “utilidades” e “alimentos”. Porém o que aconteceu ali foi tão precioso para Deus, que ele registrou os mínimos detalhes.
“Porque disseram”, lemos ainda. E antes certamente refletiram: Nosso rei está em Maanaim, ele é rejeitado; junto a ele estão os participantes de sua rejeição. Ali há necessidades, quebrantamento, fome e sede. De que maneira podemos ajudar aí?
Não deveríamos nós também ter uma visão para as carências do povo do Senhor? O apóstolo Paulo cita, em várias passagens, irmãos que o “refrigeraram” de diversos modos. Tomemos, pois, o propósito de nos colocar à disposição do Senhor. Ele terá prazer em nós, e os nossos companheiros de fé experimentarão auxílio e alívio.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Resposta às orações


Resposta às orações

Lothar Gassmann
E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão.” (Mateus 21.22)
A fé bíblica está baseada no Deus que verdadeiramente existe. Ela não gira em torno de si mesma, mas é uma relação de diálogo; ela se dispõe a receber correções vindas de fora. Deus pode corrigir nossas orações se elas estiverem “erradas” ao seu entendimento. Assim – devidamente dirigido pelo Espírito Santo – um cristão sempre perguntará (nesta ordem): “Senhor, qual é a tua vontade? Senhor, o que devo pedir e fazer pelos outros? Senhor, por qual caminho eu devo andar, de acordo com a tua vontade?”.
A oração cristã é a oração feita diante de Deus Pai, em nome de Jesus: “E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho” (João 14.13, ver 16.24; Mateus 18.20). Os cristãos também podem orar para o Filho, pois Jesus diz: “O que vocês pedirem em meu nome, eu farei” (João 14.14). Para tais orações, feitas a partir do relacionamento de fé com Deus, em Jesus Cristo, há a promessa de que serão atendidas.
A vontade de Deus é reconhecida basicamente na Bíblia e é revelada sob orientação do Espírito Santo para situações concretas (ver 1Coríntios 14.37ss; 15.1ss). Deus não satisfaz a cada desejo, mas nos dirige do modo que é melhor para nós e para os outros.
A oração move o braço de Deus. Assim, não esqueça o louvor e a gratidão.
Lembre-se do quanto Deus, em silêncio, já nos ajudou
e esteve perto quando o ânimo faltou!
A oração move o braço de Deus. Orem de modo honesto e fiel!
Não com muitas palavras, nem com fingimento!
Apresentem-se a Deus sem constrangimento.
A oração move o braço de Deus. Assim, sejam firmes em oração!
Antes de pedirem, o Senhor sabe o que precisarão.
Cedo ou tarde, ele sempre dá sua atenção.

Faça o bem àqueles que os odeiam


Façam o bem àqueles que os odeiam

Bettina Hahne-Waldscheck
Na escuridão da noite síria, nas colinas de Golã, perto da fronteira israelense, os fachos de luz de faroletes esbarram em um grupo de pessoas. Finalmente os soldados israelenses encontraram quem procuravam – e também os homens, mulheres e crianças que esperavam no escuro encontraram nos israelenses o que esperavam. Trata-se de sírios feridos e doentes para quem não existe mais ajuda médica e humanitária naquela região. Os soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) levam essas vítimas até uma clínica, onde receberão cuidados. O parceiro dos soldados da IDF é a organização médica cristã Aliança Internacional de Fronteira (FAI, na sigla em inglês), fundada em 2012 com o objetivo de unir assistência médica e cuidados com missão. Com isso iniciou-se, completamente à margem da imprensa mundial, um projeto espetacular e extraordinário em vários sentidos: os cristãos da FAI e o exército israelense instalaram duas clínicas emergenciais – e isso na Síria! Os israelenses providenciam o equipamento médico, alimentação, combustível para os geradores elétricos de emergência e o equipamento técnico médico.
A IDF fornece esse tipo de materiais auxiliares também para outras clínicas na Síria, como por exemplo a uma clínica obstétrica provisória, que recebe aparelhos de ultrassom, incubadoras e outros equipamentos médicos. Antes disso não havia nenhuma clínica ginecológica naquela região, onde vivem 225 000 pessoas. Os militares israelenses também cuidam da segurança da missão dentro da área crítica e provêm a dispendiosa logística, o transporte do pessoal médico da FAI e dos materiais auxiliares e de consumo. “Para nós é um grande privilégio trabalhar em parceria com a IDF”, comenta impressionado Dalton Thomas, fundador e diretor da FAI. “Amamos o povo judeu e as Forças de Defesa Israelenses.” “Queremos ajudar em zonas de conflito negligenciadas por organizações cristãs”, explica Thomas à revista suíça factum. Ele continua: “Nosso trabalho começou entre refugiados sírios na Turquia; depois fomos ao Iraque e para outros países em torno da Síria. Com isso entramos em contato com os militares israelenses. No início de 2017 nos perguntaram se entraríamos numa cooperação com eles para ajudar a Síria”. “Perguntamos à IDF quais seriam as necessidades dos sírios. A resposta: ‘Eles precisam de médicos’.”
Sem merecer a atenção da imprensa mundial, os militares israelenses cooperam com médicos cristãos na operação de hospitais na Síria. São ações humanitárias nas piores condições.
Foi só recentemente que vieram à luz operações humanitárias empreendidas já há cinco anos pela IDF, ocultas ao público. Um exército ajuda o seu inimigo, porque oficialmente a Síria se considera em estado de guerra contra Israel. Ao contrário do Egito e da Jordânia, a Síria recusou-se a celebrar um tratado de paz com Israel. A missão começou como ação ad hoc quando, há alguns anos, sírios feridos foram levados por seus parentes até a fronteira israelense. Eles pediram ajuda aos militares israelenses. Disso desenvolveu-se em 2016 uma grande ajuda humanitária, a “Operation Good Neighbor” [Operação Bom Vizinho].
Os médicos da FAI trabalham sob condições de inimaginável dificuldade; às vezes até em abrigos subterrâneos. Recentemente ajudaram ali dois bebês a vir à luz sob o barulho de um bombardeio aéreo. Nos vídeos encontrados no site da FAI que mostram os médicos em atividade, veem-se em parte imagens brutais de braços e pernas decepados e peitos dilacerados por bombas. Dalton Thomas, fundador e presidente da FAI, informa: “Oferecemos ajuda emergencial, mas nosso principal foco são as famílias. Queremos ajudar principalmente a geração seguinte, bem como as mães que engravidam no meio da guerra. Cremos que Jesus quer nossa presença em lugares difíceis, junto às pessoas – que choremos e nos alegremos com elas. Queremos dizer-lhes que as amamos. Fazemos tudo isso por Jesus, pela Síria e por Israel. Se estabelecermos entre estas duas nações uma atmosfera de respeito, a fronteira de Israel também se tornará mais segura”. Também os israelenses esperam que a Operação Bom Vizinho contribua para criar na Síria um ambiente menos hostil.
Assaf Orion, ex-chefe do planejamento de pessoal na divisão estratégica da IDF, disse ao Jewish News Syndicate (JNS.org): “Esta abordagem humanitária, que já revela seus efeitos, é moralmente correta e proporciona outros resultados palpáveis na medida em que a noção sobre Israel entre seus vizinhos mais próximos na Síria muda. Fato é que nunca houve ataques a Israel provenientes dessas regiões, em contraste com as regiões ocupadas pelo regime”. Um comandante participante também enfatiza que a IDF age movida por um “imperativo moral”. Em 2012, IDF e FAI tinham ao mesmo tempo e independentes um do outro o mesmo objetivo: prestar ajuda humanitária a sírios – até que no início de 2017 eles se encontraram para formar uma parceria.
“Fazemos tudo isso por Jesus, pela Síria e por Israel.”
Um documentário da emissora cristã CBN intitulado “Serving Syrians Alongside the Israeli Army” [Servindo Sírios ao Lado do Exército Israelense], que noticiou pela primeira vez essas campanhas assistenciais, mostra a FAI, com ajuda de militares israelenses, enviando uma equipe médica para um hospital emergencial dentro da Síria. Depois de sete semanas, a doutora americana Sally Parsons retornou dessa campanha. Por que ela foi até lá? Ela explica: “Porque o Senhor nos chama para ir a todas as nações do mundo. Percebi que Deus me dizia que fizesse exatamente isso aqui”. Debbie Dennison, enfermeira emergencial americana, que também entende ter sido chamada por Deus do mesmo modo, complementa: “Gente é gente, não importa se ostenta o rótulo de cristão, muçulmano ou judeu. São mulheres e homens. Todos têm as mesmas necessidades e ferimentos e precisam da mesma solidariedade e amor [...] Fomos como cristãos a uma comunidade que não nos conhecia, que alimenta uma hostilidade histórica contra cristãos, mas bastava expressar amor para sermos recebidos de braços abertos”.
Os 20 profissionais médicos da FAI na Síria, provenientes de diversos países, realizam seu trabalho sem ganhar um centavo. Tratam-se de campanhas de muitos meses ou mais. “Para mim, essas são as pessoas mais espantosas do mundo”, disse Dalton Thomas à revista suíça factum, “porque trabalham num ambiente muito difícil e perigoso. Muitas vezes ocorrem combates em torno deles ou há explosões de bombas. Para mim, esses médicos são heróis. Os habitantes locais os amam.”
Muitas vezes os médicos são confrontados com situações médicas que não correspondem à sua especialidade. Nessas horas, o que ajuda é a oração e a atuação decidida, tal como ocorreu recentemente com uma grávida que precisava de uma cesariana. Sally Parsons relata na CBN: “Baixamos um vídeo do YouTube que mostrava a técnica da cesariana, mas oramos muito mais do que lemos”. Assim inspirada, a dra. Parsons trouxe um bebê saudável ao mundo por meio de incisões cirúrgicas seguras. “É isto que nos mantêm de pé: ver nova vida em meio a uma guerra cruel. É uma bênção incrível.” Pacientes em condições de tratamento demorado são enviados a Israel pela médica. O exército israelense cuida do transporte para hospitais israelenses.
Cristãos e judeus atuam juntos segundo o lema: “Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam” (Lc 6.27).
Segundo a IDF, desde 2012 a Operação Bom Vizinho já prestou assistência médica a mais de 5 000 pessoas. Além de feridos em combate, Israel também cuida de crianças com doenças crônicas que não têm acesso a hospitais, transportando-as de ônibus para hospitais israelenses. O custo é assumido pelo Estado de Israel. Além disso, todas as noites, transportes assistenciais israelenses atravessam a fronteira síria. Os militares israelenses já disponibilizaram mais de 450 000 litros de combustível para aquecedores e geradores elétricos, 40 toneladas de farinha, 225 toneladas de refeições, 12 000 embalagens de alimento para bebês, 1 800 pacotes de fraldas, 12 toneladas de calçados e 55 toneladas de agasalhos. No total, Israel já despendeu vários milhões de dólares em ajuda humanitária para a Síria.
“Não suporto ver como as pessoas além da fronteira sucumbem [...] Para mim, é uma oportunidade para ajudar”, diz o primeiro-oficial médico da Operação Bom Vizinho, o major Sergey, à CBN News em Israel: “Tenho muito orgulho de poder participar, e preciso agradecer à organização FAI por enviar esse pessoal médico altamente profissionalizado para ajudar no lado sírio. Não é fácil”. Danton Thomas comenta a respeito dos militares israelenses: “Nos últimos cinco a seis anos, as forças de defesa israelenses colocaram de lado a política para poderem construir uma boa vizinhança com a Síria. Nossa cooperação com a IDF é um projeto único na história. Nunca antes os militares israelenses trabalharam em parceria com uma organização cristã para ajudar o inimigo com ações de amor ao próximo”. Judeus e cristãos trabalham de mão em mão para ajudar muçulmanos carentes.
Israel pratica aqui o amor ao inimigo preconizado por Jesus: faz o bem aos que o odeiam. Pode-se observar nas reações dos pacientes que isso move algo neles. Pacientes sírios tratados em hospitais israelenses oferecem à imprensa declarações como esta: “Bem que eu gostaria de poder ficar aqui para sempre”, ou: “A todos os sírios que consideram Israel nosso inimigo: vocês estão errados! Nós amamos Israel! Eu pensava que Israel fosse mau, mas agora vejo que é exatamente o contrário. Dou graças a Deus por ter chegado em tempo a Israel; caso contrário, não estaria mais vivo”. (factum-magazin.ch)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Quanto tempo me resta?


Quanto tempo me resta?

Daniel Lima
Era um acampamento de adolescentes. Como parte da equipe organizadora, fui dormir já de madrugada, após verificar que todos os adolescentes estavam nos quartos e lembrando que precisaria levantar cedo para buscar o pão para o café da manhã do grupo. Ao chegar no quarto da equipe, descobri que todas as camas estavam tomadas. Assim, carreguei meu saco de dormir e fui para uma Kombi, onde dormi as poucas horas que me restavam. Na manhã seguinte despertei animado e cheio de energia! Comprei o pão, dirigi as atividades, corri o dia todo, sem nem lembrar da noite curta e desconfortável.
Já se passaram mais de 35 anos desde este dia... Hoje, se o travesseiro não for bom e o colchão não for adequado, tenho dificuldade de dormir. Para completar, minha definição de noite bem dormida é aquela que tenho de me levantar apenas uma vez para ir ao banheiro...
Na semana passada completei 61 anos de idade. Pela misericórdia de Deus, gozo de boa saúde e não tenho nenhuma limitação crônica. No entanto, meu corpo não me deixa esquecer que a vida é breve.
No Salmo 90, lemos uma oração atribuída a Moisés em que ele trata da brevidade da vida e de como o tempo é fugaz. Os versos 10 a 12 afirmam:
10Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou a oitenta para os que têm mais vigor; entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa, e nós voamos! 11Quem conhece o poder da tua ira? Pois o teu furor é tão grande como o temor que te é devido 12Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria.
O salmo nos apresenta uma expectativa de vida de 80 anos (para os que têm vigor), e o verso 12 propõe o curioso exercício de “contar os nossos dias”. Embora não sabendo quantos anos o Senhor tem reservado para nós, e que o propósito do exercício de contar dias é muito mais que matemática, um cálculo rápido indica que eu já ultrapassei 75% de minha vida. Em outras palavras, já vivi 22 265 dias de vida e ainda me restam 6 935...
É certo que não é este o propósito do verso 12 ao nos estimular a “contar os nossos dias”. No entanto, ao fazer este simples exercício, devo reconhecer que minha mente é alertada para o fato (inegável) de que não tenho tanto tempo nesta vida. Duas reflexões se impõem diante deste “alerta”. A primeira é: “Onde investi minha vida?”. Essa é uma questão que pode se tornar deprimente ao observar tempo desperdiçado, sonhos não realizados ou erros cometidos; ou pode gerar alegria e gratidão ao ver compromissos assumidos há muitos anos que ainda se mantém: fidelidade a Deus, compromisso com o cônjuge e a família, integridade de vida.
Podemos olhar para o futuro e viver intencionalmente os dias que nos restam – intencionalmente voltada para Deus.
A segunda e, talvez, mais importante reflexão é: “O que vou fazer com o restante da minha vida?”. Ao olhar para o passado posso aprender, mas não posso mudar nada. No entanto, posso olhar para o futuro e viver intencionalmente os dias que me restam. Parece-me que esta é uma boa definição de um coração que alcançou sabedoria: viver o restante de sua vida intencionalmente voltada para Deus.
Devo confessar que estou bem satisfeito com minha idade. É óbvio que sinto falta de um corpo mais forte, ágil e disposto. Mas reconheço também que não teria chegado onde hoje está meu coração sem todos esses anos de caminhada. Eu não trocaria a saúde que um dia tive pela sabedoria (às vezes aproveito tão pouco dela) que o Senhor me concedeu ao longo dos anos.
Revendo o título deste artigo, quero afirmar que a pergunta mais importante não é quanto tempo me resta, posto que não podemos respondê-la. A pergunta principal é como vou viver o tempo que me resta, não importa quanto seja. Minha sincera oração, tanto para mim mesmo como para você, é expressa brilhantemente pelo apóstolo Paulo em Filipenses 3.13-14:
13Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, 14prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Qual o papel do sofrimento?


Qual o papel do sofrimento?

Daniel Lima
Nesta última semana estive lendo o livro de Jó. Todos conhecemos a história. Jó era um homem bom e fiel, mas Deus permite que Satanás faça todo tipo de maldade contra ele. Após tragédias gigantescas em sua vida, três amigos chegam para trazer consolo. Nessa leitura, um dos conselhos dados pelos amigos de Jó saltou aos meus olhos e me fez parar para refletir sobre o tema do propósito do sofrimento. Trata-se da palavra de Bildade registrada em Jó 8.5-6:
5Mas, se você procurar a Deus e implorar junto ao Todo-poderoso, 6se você for íntegro e puro, ele se levantará agora mesmo em seu favor e o restabelecerá no lugar que por justiça cabe a você.
A primeira parte da sentença faz todo sentido, pois estimula Jó a procurar a Deus e implorar. No entanto, a segunda parte revela uma distorção tão comum e frequente. Apesar de bem-intencionadas, as palavras do amigo de Jó mostram sua percepção de uma relação meritória com Deus. Começa com a condição de sermos íntegros e puros e se torna ainda mais evidente com a expressão “restabelecerá no lugar que por justiça cabe a você”, acrescentando ainda que Deus fará isso “agora mesmo”.
Vamos ver estes desvios com cuidado. Primeiramente, a palavra de Bildade indica uma percepção de que integridade e pureza tornam a pessoa merecedora de algo em troca. Nesta perspectiva, diante da integridade e da pureza, Deus se vê obrigado a vir em favor da pessoa. Esta é a razão da bondade de Deus (o que automaticamente deixa de ser bondade e passa a ser “pagar o que é devido”). Pensando assim, Deus é obrigado a, diante de minha justiça, me abençoar. O apóstolo Paulo trata deste tema em sua autoavaliação, em Filipenses 3.2-11. Ele afirma no verso 4 que, “se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais”. Porém, Paulo rapidamente afirma que o que para ele era lucro ou razão de mérito tornou-se como lixo; ou seja, suas realizações de “justiça” não lhe atribuíam nenhum mérito.
Se você já fez uma avaliação profunda e sincera de seu coração, você também treme ao pensar em Deus fazendo justiça com base na sua integridade ou pureza.
Em segundo lugar, Bildade desenvolve a ideia de que Deus colocará alguém no lugar que “por justiça” lhe é devido. Mais uma vez vemos uma imagem de um Deus subserviente ou obrigado a restaurar a alguém por causa de sua justiça pessoal. Com frequência vemos isso tanto em cânticos como em pregações. Esta é uma relação mercantilista, onde Deus é obrigado a cumprir seu lado do negócio. É algo como: “Eu fiz minha parte sendo justo, agora Deus tem que fazer a parte dele me restabelecendo à posição que é minha por justiça”. Percebe a arrogância deste pensamento? Paulo compreende que não pode – nem deve – se apoiar em sua própria justiça. Nos versos 8 e 9 ele afirma:
8... para poder ganhar Cristo 9e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.
Repare que Paulo não confia em sua própria justiça. Se você, como eu, já fez uma avaliação profunda e sincera de seu coração, você também treme ao pensar em Deus fazendo justiça com base na sua integridade ou pureza. O que queremos é misericórdia. O que pode nos salvar é justamente a justiça de Cristo, mediante a fé.
Você, eu e a maioria dos seres humanos, diante de um problema, com frequência reage perguntando “onde foi que errei”? Isso faz um certo sentido, pois geralmente nos envolvemos em problemas que nós mesmos criamos, mas a Bíblia aponta inúmeras vezes em que homens e mulheres de Deus se deparam com problemas e sofrimentos que não têm nenhuma relação direta com erros e deslizes seus. Se não é por decisões tolas de nossa parte, e se cremos que nosso Deus é soberano sobre todos os detalhes, por que, então, sofremos?
Nos próximos artigos eu gostaria de examinar situações em que a Bíblia registra homens e mulheres que sofreram (em alguns casos até a morte), sem que isso fosse consequência de erros seus. Ou seja, Deus permitiu que sofressem por motivos superiores. Minha esperança é que, ao olhar estes santos de Deus enfrentando desafios, possamos compreender melhor os propósitos de Deus e sermos estimulados a manter nossos olhos fixos no autor e consumador de nossa fé.

O Segredo do Povo de Israel


O Segredo do Povo de Israel

Fredy Peter
Em Jeremias 31 Deus esclarece que Israel permanecerá sendo o seu povo enquanto houver sol, lua e estrelas (v. 35-36). Esse capítulo é um dos argumentos mais fortes sobre a eleição permanente do povo judeu.
Mark Twain (1835-1910), escritor que viajou pelo mundo, escreveu em 1899: “Se as estatísticas forem corretas, os judeus compõem apenas um por cento da humanidade – uma faísca insignificante diante do brilho da Via Láctea. Normalmente não se deveria nem ouvir algo do judeu, mas mesmo assim ouvimos no passado e hoje continuamos ouvindo sobre ele. A sua fama pode crescer como qualquer outro país do mundo, e sua importância para a economia e comércio de modo nenhum está relacionada com seu número de habitantes. Sua contribuição para a lista de grandes nomes da literatura, ciência, artes, música, sistema financeiro, medicina e do profundo pensamento é igualmente admirável. Ele se portou de modo grandioso durante vários séculos neste mundo – e isso com as mãos amarradas nas costas. Com razão ele poderia estar orgulhoso e vaidoso com isso. Os egípcios, babilônios e persas assumiram o poder, encheram a terra com seu brilho, mas o som deles naufragou. Na sequência os gregos e romanos seguiram, fizeram muito barulho e desapareceram. O judeu viu a todos, os venceu e hoje é aquilo que ele sempre foi; não apresenta decadência, nem envelhecimento, nem fraquezas, nem diminuição de energia, nem deficiências em sua vigilância e em seu espírito dinâmico. Todas as coisas são mortais, menos os judeus; todas as forças se esvaem, mas ele permanece. Qual é o segredo de sua imortalidade?”.
O segredo está na eleição e na vocação de Israel pelo único, verdadeiro e eterno Deus vivo! “Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí” (Jr 31.3 RA).
Os versículos 31 a 40 de Jeremias 31 estão entre os mais maravilhosos de todo o Antigo Testamento. Eles mostram que, mesmo em tempos de muita dificuldade e opressão, Israel está seguro nas mãos de Deus.
Deus promete ao seu povo:
Uma nova aliança: “‘Estão chegando os dias’, declara o Senhor, ‘quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá’”.
Renovação espiritual: “Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações”.
Renovação nacional: “Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo”.
Renovação jurídica: “Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados”.
Renovação da segurança: “‘Se os céus em cima puderem ser medidos, e os alicerces da terra embaixo puderem ser sondados, então eu rejeitarei os descendentes de Israel”.
Renovação topográfica: Jerusalém “será reconstruída para o Senhor... A cidade nunca mais será arrasada ou destruída”.
Todas essas afirmações com certeza serão cumpridas. Israel não desaparecerá!
Assim como acontecerá com Israel, assim também Jesus Cristo, com toda a certeza, chegará ao alvo conosco e com a nossa vida (cf. Fp 1.6). Podemos confiar que “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” (Rm 8.28) e que nada “será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39).

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O Deus que torna mal em bem


O Deus que torna mal em bem

Daniel Lima
É impressionante como um período de sofrimento parece eterno para quem o está atravessando, mas para quem olha de fora é mais fácil ter uma perspectiva mais real. Lembro-me bem do período em que lutei com uma depressão, fruto de não liberar perdão. Foi quase um ano em que nada me animava; durante o dia eu ansiava pela noite, para dormir, e durante a noite eu ansiava pelo dia, para poder sair da cama... Pareceu uma eternidade, um tempo sem fim. No entanto, foram apenas alguns meses.
Este é o terceiro artigo sobre sofrimento. No primeiro escrevi sobre a realidade do sofrimento e como sofrer sem entender a razão tem o poder de nos tornar mais sábios ou mais amargos (leia “Qual o papel do sofrimento?”). No segundo comecei a estudar a vida de José, que sofreu a traição de seus irmãos de forma totalmente desproporcional a qualquer atitude arrogante que pudesse ter tido: foi vendido como escravo e levado ao Egito (leia E agora, José?).
Escravos eram bens valiosos e, muito embora vivessem em condições precárias, José teve a sorte de ser comprado por um oficial do Faraó (Gênesis 37.36). Potifar era certamente um membro da nobreza militar do Egito. Homem de influência e riqueza. É evidente que a condição de José, ainda que escravo, foi privilegiada. Gênesis afirma que ele passou a morar na casa do seu Senhor. Não só se tornou um escravo da casa, ao invés de um escravo do campo, mas também era bem-sucedido no que fazia, ao ponto de que o próprio Faraó passou a confiar nele. A Bíblia deixa claro que isso ocorria porque “o Senhor estava com José”. Esta confiança do patrão foi recompensada e tudo que era seu prosperava.
Contudo, mais uma vez Deus permite que José seja enredado em uma trama perversa (Gênesis 39). Desta vez a esposa de Potifar tenta seduzi-lo. Registros históricos mostram que esta situação não era tão rara. Nesta sociedade pagã da Antiguidade, senhores (e senhoras) mantinham relações sexuais com escravos selecionados. No entanto, José se nega a trair a confiança de seu senhor e de seu Deus. Em determinado dia a senhora cria uma situação e, sendo rejeitada, acusa José injustamente de assédio.
Por que nos surpreendemos quando sofremos injustiças? Deveríamos nos preocupar se o mundo não nos confrontar.
Mesmo um escravo qualificado não tinha nenhuma credibilidade diante da senhora da casa. José é enviado para a prisão. Ali também o “Senhor estava com ele”, e ele é encarregado da administração da prisão. Algum tempo depois ele interpreta corretamente os sonhos de dois oficiais do rei. Muito embora ambas as interpretações se cumpram, e mesmo tendo pedido por intervenção do chefe dos copeiros, José é mais uma vez esquecido na prisão. Mais dois anos se passam antes de José ser chamado a interpretar os sonhos do Faraó e ser erguido à posição de governador do Egito. Nesta condição, mais uma vez ele é bem-sucedido e prospera em sua função.
Mais alguns anos se passam até que seus irmãos venham comprar comida no Egito. Nesta ocasião José testa seus irmãos forçando-os a trazer o irmão mais novo, Benjamim, na próxima viagem, enquanto mantém Simeão como refém. Na segunda vinda ele mais uma vez testa os irmãos, mas acaba por se revelar e promove a vinda e a instalação do pai e do restante da família ali no Egito. É uma história impressionante e complexa. As reações são muito humanas – a ponto de não deixar dúvidas de se tratar de uma história real. Nosso foco, no entanto, é em como José encarou seu sofrimento e que lições podemos tirar desta história.
  1. Primeiramente, não resta dúvidas de que o sofrimento de José não foi causado por ele. O relato afirma repetidas vezes que Deus estava com José. Embora se possa vislumbrar alguma arrogância em sua juventude, não há nenhum indício desta em sua idade adulta. Pode-se imaginar que a experiência de ser vendido como escravo transformou sua atitude de uma vez por todas.
  2. As injustiças que José sofreu foram resultado do mundo em pecado. Como cristãos, não deveríamos ficar surpresos com o sofrimento que o mundo nos causa. O apóstolo Paulo escreveu com clareza: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Timóteo 3.12). Por que então nos surpreendemos quando sofremos injustiças? Deveríamos nos preocupar se o mundo não nos confrontar.
  3. José continuou servindo a Deus mesmo em meio a condições injustas e indignas. Ele sabia quem era seu Salvador e Sustentador. Após a morte do pai, quando seus irmãos ficaram temerosos do que José podia fazer, ele faz uma declaração que indica duas verdades: “Não tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus? Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos. Por isso, não tenham medo. Eu sustentarei vocês e seus filhos” (Gênesis 50.19-21).
Primeira verdade: vocês planejaram o mal... Reconhecer que sofremos a injustiça é o primeiro passo do perdão. Infelizmente, quando ouvimos alguém se queixar de uma injustiça, queremos minimizar o ocorrido procurando dizer que “quem sabe o outro não percebeu? Quem sabe foi sem querer?”. É importante reconhecer que sofremos injustiças, mesmo de outros cristãos; caso contrário, vamos continuar tentando nos convencer de que o engano foi meu, que eu não entendi o que aconteceu... Embora isso possa ocorrer, às vezes pessoas (mesmo família ou cristãos) planejam o mal contra nós.
José continuou servindo a Deus mesmo em meio a condições injustas e indignas. Ele sabia quem era seu Salvador e Sustentador.
Segunda verdade: Deus é soberano e ele torna o mal em bem! Esta é nossa grande esperança em um mundo caído. Sim, vamos sofrer injustiças; sim, sofreremos as atitudes de um mundo caído. No entanto, podemos confiar em um Deus que torna o mal em bem, que lida com o pecado daqueles que pecaram contra nós.

Minha oração é que diante do sofrimento que Deus tem permitido contra nós, nosso coração não fique amargurado, mas confie naquele que pode tornar o mal em bem. Pessoalmente, eu acredito que era devido a esta crença que “Deus estava com José”, mesmo no fundo da prisão.