sexta-feira, 17 de maio de 2019

Vivendo nos Tempos Finais

Vivendo nos Tempos Finais com um Olhar em Daniel

Dr. Rolf Sons
Como a fé cristã pode ser identificada em um mundo que não se entende como cristão? Como pode permanecer reconhecível e vigorosa numa época que cada vez mais se desvincula de conteúdos e valores cristãos? De que modo a nossa fé manterá um perfil que não permita que seja dissolvida ou submerja no mainstream social geral?
Essas perguntas não são novas. Na verdade, são tão antigas quanto a própria fé no Deus da Bíblia. A fé no Deus único da Bíblia sempre esteve em conflito com outras influências, posturas e comportamentos estranhos à fé bíblica.
Se examinarmos a Escritura Sagrada, veremos que o conflito entre adaptação e resistência constitui um tema constante para a fé bíblica. Encontramos Arão, o irmão de Moisés, cedendo à pressão do povo por adaptação e substituindo o Deus do Sinai por uma imagem dourada de um touro. Por outro lado, vemos também como Daniel e seus amigos se mantêm firmes diante da pressão por adaptação na corte babilônica e não abrem mão da sua identidade judia. No profeta Jeremias podemos observar como sua pregação contraria as palavras dos profetas daquele tempo e como ele precisa pagar sua atitude com desprezo à sua pessoa e com sofrimento. Um olhar para os evangelhos mostra-nos a incorruptibilidade e a resistência do Senhor Jesus. Paulo, finalmente, desafia abertamente a igreja em Roma a não se conformar a este mundo (Rm 12.2).
A seguir daremos uma atenção mais detida a Daniel e a seus três amigos. Segundo Gerhard Meier, podemos aprender do livro de Daniel o que significa confiança em Deus, obediência aos mandamentos de Deus e fidelidade até o martírio. Esse livro, um tanto misterioso em muitas passagens, revela hoje em dois sentidos uma atualidade particular. Por um lado, ele nos mostra como podemos viver como cristãos na diáspora. Crentes em situação social minoritária e expostos à pressão de um público ou uma sociedade não-cristã ou anticristã podem aprender com o livro de Daniel. Muitos cristãos em países muçulmanos vivem em situação de minoria, mas mesmo entre nós aqui no Ocidente sentimos crescentemente a pressão por adaptação à tendência social predominante.
Outra coisa que observamos em Daniel é a perspectiva escatológica. O livro de Daniel testifica de uma forte esperança pelo reino vindouro de Deus. Essa esperança vem acompanhada de grandes abalos. Como cristãos, vivemos hoje numa situação comparável. Impérios vêm e vão, e a nossa terra sofre múltiplos abalos. No meio de tudo isso, porém, esperamos o novo mundo de Deus.
Quero agora tentar descrever em cinco tópicos um estilo de vida escatológico que se opõe à pressão por adaptação:
1. Manter firmeza de coração. O livro de Daniel nos introduz nas violentas convulsões ocorridas no Oriente Médio no sexto século antes de Cristo. No ano de 605, o rei babilônico Nabucodonosor vence a grande potência egípcia na batalha de Carquemis, conquistando com isso um domínio irrestrito naquela região. Em seu retorno à Babilônia, ele avança pela primeira vez contra Jerusalém, saqueia o templo e providencia deportações. Daniel e seus três amigos são levados à Babilônia e submetidos a um grande programa de reeducação na corte daquele despótico rei. Nabucodonosor equipara-se nisso aos tiranos de todos os tempos. Ele procura jovens isentos de debilidades, belos, bem-dotados e inteligentes, os quais pretende “enquadrar”. Para isso, deverão não apenas aprender a língua e a escrita dos babilônios; eles devem também acostumar-se à culinária babilônica. Nesse contexto eles são renomeados. Daniel (Deus é meu Juiz) logo se tornará Beltessazar (Bel, o deus pagão, proteja sua vida). – A transição para o cardápio pagão torna-se uma séria prova de fé para Daniel. Os babilônios comem animais considerados impuros segundo a lei judaica. Além disso, tomam vinho dedicado e em parte oferecido aos deuses. A questão da comida não é nenhum adiáforo, ou seja, algo de importância secundária. Antes, trata-se aqui da obediência ao mandamento de Deus.
Em sua família de origem judaica, Daniel aprendeu os regulamentos alimentares dos judeus e também os praticou. Agora ele é pressionado a abandoná-los ou a admiti-los como suas próprias convicções. Ainda como jovem, Daniel enfrenta uma situação decisiva de amplo alcance. Permanecerá ele fiel às suas convicções ou adaptará estas às circunstâncias externas, cedendo à pressão? Podemos também formular essa pergunta assim: como cristãos, onde somos induzidos a nos adaptar ao contexto cultural? Onde precisamos distinguir-nos e obedecer a Deus mais que aos homens?
Daniel se adaptou em vários aspectos. Ele precisou ocupar-se com a língua, a escrita e a ciência pagãs. Ele se movimenta diariamente na corte do rei e interage com pessoas a quem sua fé nada significa. Ele está presente às festas pagãs e até recebe um novo nome. Daniel vive totalmente imerso em um mundo pagão. Ao mesmo tempo, porém, ele toma uma decisão fundamental. Ele não quer tornar-se impuro. Com toda a solidariedade externa com aquele império pagão, em seu coração ele permanece fiel a Deus. Assim, lemos: “Daniel, contudo, decidiu não se tornar impuro com a comida e com o vinho do rei”.
Em seu coração, Daniel toma a firme decisão de permanecer fiel às tradições que sua educação judaica lhe incutiu. Ninguém o força exteriormente a tomar essa decisão. Antes, neste ponto ele assume responsabilidade por si mesmo. Quer permanecer fiel ao seu Deus, à sua fé e à sua educação religiosa.
Podemos extrair três lições desse evento. Por um lado, necessitamos proporcionar às crianças uma formação decididamente cristã. Elas necessitam de tradições, hábitos e rituais que mais tarde lhes possam fornecer apoio na vida. Nesta chamada era pós-moderna, cuja característica inclui a total ruptura com as tradições, enfrentamos grandes desafios. Como poderemos cultivar para nós mesmos tradições úteis e repassá-las à geração seguinte?
Nossas crianças necessitam de tradições, hábitos e rituais que mais tarde lhes possam fornecer apoio na vida.
Outro ponto que se destaca neste contexto é o fato de que Daniel elabora sua própria decisão. Uma tradição precisa ser assumida. É preciso assumir responsabilidade pessoal pelas tradições. Não basta assumir a fé exteriormente. Há necessidade de uma “motivação intrínseca”.
Finalmente, em um mundo secular ou também multirreligioso, a fé impõe decisões. Tomar decisões, porém, significa que um cristão não cederá simplesmente e se deixará arrastar com a grande corrente, mas confessa sua posição e com isso assume responsabilidade.
Tal confissão requer coragem. O Novo Testamento informa-nos que Jesus Cristo reconhece e abençoa decisões como esta (Mt 10.32). Daniel também experimenta a confirmação de Deus. Não só ele experimenta a boa vontade do copeiro real, como também é premiado com saúde, bem-estar e sabedoria divina.
2. Obedecer mais a Deus que aos homens. No segundo ano do seu reinado (aprox. no ano 602), Nabucodonosor é profundamente angustiado por um sonho noturno, mas ele não lembra mais o conteúdo do sonho. Por isso ele ordena aos videntes e sábios do seu reino que lhe comuniquem tanto o conteúdo como a interpretação do sonho. Estes, porém, se veem sobrecarregados e precisam reconhecer: “O que o rei está pedindo é difícil demais; ninguém pode revelar isso ao rei, senão os deuses, e eles não vivem entre os mortais” (2.11). Os representantes do esoterismo pagão chegaram ao fim da sua arte e precisam confessar a necessidade da ajuda de outros deuses, desconhecidos na Babilônia. Finalmente, Daniel toma a iniciativa. Como ele vê a si mesmo e também os magos pagãos em perigo de vida, ele se dirige ao rei e pede um prazo para interpretar o sonho. Daniel procura seus amigos. Juntos eles oram ao Deus que “revela coisas profundas e ocultas; conhece o que jaz nas trevas” (2.22) a fim de que ele lhes revele o sonho. Finalmente, Daniel recebe em uma visão noturna uma tremenda revelação dos reinos deste mundo e de sua desintegração.
A interpretação do sonho por Daniel assustou profundamente Nabucodonosor. Por isso é compreensível que ele trate de fazer tudo que está ao seu alcance para firmar e unir o seu reino – e o que poderia ser melhor para isso do que um grande ato de Estado que obrigasse todos os súditos à adoração do Deus único? Nabucodonosor manda fazer uma estátua revestida de ouro, com cerca de 30 metros de altura e aproximadamente 3 metros de largura. Considerando seu perfil delgado, pode ter sido um obelisco. Para inaugurar esse símbolo da unidade de Estado e religião, ele convida todos os governadores provinciais e representantes da justiça e da administração pública. A unidade do império é questão prioritária. Por isso, os representantes das diversas regiões do império estariam comprometidos com a adoração da estátua.
Assim, também os três amigos de Daniel foram convocados a essa cerimônia oficial em suas funções de governadores distritais. Como judeus, consideram-se comprometidos com o primeiro mandamento. Por isso recusam-se a adorar o ídolo. A informação é levada a Nabucodonosor: “Mas há alguns judeus... que não te dão ouvidos, ó rei. Não prestam culto aos teus deuses nem adoram a imagem de ouro que mandaste erguer” (3.12).
No fundo, o que se passa aqui é ridículo. O que representam três homens entre milhares, talvez até milhões de pessoas que adoram o deus oficial? O império de Nabucodonosor representa o estado anticristão totalitário. Ele exige submissão total. Quem não se submeter é afastado, excluído, difamado, perseguido ou até morto. Temos aqui as características de uma ditadura. A história está cheia delas.
Nós hoje vivemos numa democracia. Há liberdade de opinião, tolerância e liberdade – e liberdade significa sempre a liberdade do divergente. Ainda assim, também em nossa sociedade libertária esbarramos em limites. Existe algo como uma corrente da opinião pública, da qual é difícil escapar. Quem se opõe ao mainstream e não aprova tudo o que a massa ou os formadores de opinião social defendem, é rapidamente excluído e difamado. Infelizmente isso também se manifesta em muitas igrejas. Existe algo como uma correção política daquilo que se pode dizer, escrever ou pensar e o que não pode. Há exemplos de sobra disso no mundo eclesiástico e acadêmico. É injusto quando, por exemplo, um congresso de igrejas exclui o “Serviço de Evangelização de Israel” de sua área de atuação. Da mesma forma é injusto quando grupos como o Wuestenstrom [Corrente no Deserto], que pleiteiam um tratamento alternativo de pessoas com tendências homossexuais, não encontram espaço no maior encontro protestante europeu.
Quem se opõe ao mainstream e não aprova tudo o que a massa ou os formadores de opinião social defendem, é rapidamente excluído e difamado.
Passamos hoje por uma situação agitada no relacionamento com os muçulmanos. Quem arriscará dizer que as diferenças entre o islã e o cristianismo são intransponíveis? Quem arriscará dizer que o cristianismo e o islã jamais poderão se irmanar? Quem arriscará contestar a tendência de equalização?
Como resistir à adaptação? Os três amigos de Daniel obedecem em sua situação mais a Deus que aos homens. Onde a liberdade do evangelho e da fé está em jogo e é ameaçada, aplica-se esta máxima. Os cristãos são leais ao seu Estado enquanto puderem expressar livremente sua fé. Onde se procura inibir isso, eles respondem e obedecem a uma lealdade superior.
3. Suportar sofrimento. A Babilônia criou fama como a terra das fornalhas. Queimavam-se tijolos e fundiam-se minérios em fornos-túnel. Com aquecimento a carvão vegetal, essas fornalhas atingiam temperaturas de até 1.000 graus. Foi numa fornalha desse tipo que os três amigos de Daniel seriam lançados. Eles se recusaram a adorar o ídolo. Agora precisam contar com as consequências e são atirados na fornalha ardente.
A igreja dos tempos finais que resistir à pressão por adaptação não poderá escapar do sofrimento. Jesus mesmo alertou seus discípulos de que seriam lançados nas prisões, conduzidos à presença de reis e governadores e que seriam odiados por todos (Lc 21.12ss). Paulo escreve à igreja de Filipos: “Pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele” (Fp 1.29). A carta aos Hebreus dirige o olhar da igreja sofredora para Cristo, que já sofreu na cruz por ela e suportou a oposição dos homens (Hb 12.1ss).
Há uma afinidade íntima entre seguir a Cristo e sofrer. Os discípulos de Jesus são enviados “como ovelhas no meio de lobos”. Manfred Seitz lembra que a igreja é abençoada no martírio. Para que ela é abençoada? Para que a igreja de Jesus permaneça de fato autêntica e sua vida espiritual não se torne rasteira, ela precisa de uma certa medida de sofrimento. Caso contrário, ela se desprenderá de Cristo e passará a vagar ao sabor de muitas correntezas. Apenas o sofrimento ancora ela firmemente na Palavra de Deus.
Outra bênção do sofrimento consiste em que as denominações separadas se aproximem nessa situação. Seitz lembra aqui as experiências de cristãos luteranos e ortodoxos na Rússia durante a revolução bolchevique e os encontros entre católicos e protestantes nos campos de concentração da Alemanha nazista. No confronto com o império anticristão, que reivindica submissão total, resta à Igreja somente o sofrimento. Karl Hartenstein diz: “Para a igreja não existe revolução, apenas o sofrimento”.
No entanto, em todo sofrimento existe também uma experiência espiritual fundamental. Os sofredores são sustentados e guardados por Cristo de modo especial. Exatamente essa experiência é concedida também aos três amigos de Daniel. Ao entrarem na fornalha, uma quarta pessoa se associa a eles, de modo que Nabucodonosor esfrega os olhos espantado: “Não foram três os homens amarrados que nós atiramos no fogo?... Olhem! Estou vendo quatro homens, desamarrados e ilesos, andando pelo fogo, e o quarto se parece com um filho dos deuses” (3.24b-25).
A carta aos Hebreus oferece uma interpretação desse milagre. Ela diz: “[Pela fé] apagaram o poder do fogo” (Hb 11.34). Com efeito, os três amigos confiaram na supremacia do seu Deus. “... o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei” (3.17).
A história do seu povo ensinou aos três que o seu Deus pode salvar. Se ele salvou Israel do mar Vermelho, ele também poderia salvar naquela situação. Por outro lado, a história dos mártires cristãos mostra que nem sempre o desfecho é tão feliz como no caso dos amigos de Daniel. Ainda assim permanece a certeza de que também aqueles que sofrem por amor a Cristo são sustentados pela sua mão. Em 1917, na região do Báltico, o professor de teologia Traugott Hahn foi primeiro preso pelos bolcheviques e depois morto. Sua esposa escreve em retrospectiva:
“Naquela escuridão quase anestesiante da primeira dor, brilhou da cruz de Cristo o ‘apesar’ da fé. Acaso o mal não havia aparentemente vencido no dia da crucificação? E, no entanto, foi a maior vitória jamais conquistada, o maior ato de amor de Deus em favor dos homens. Assim, também nós pudemos crer nas intenções amorosas de Deus, embora evidentemente ainda estivessem encobertas para nós. Não havia Deus também fortalecido intimamente o meu marido para que pudesse trilhar em obediência a ele o amargo caminho para a morte, e não foi essa vitória íntima maior do que teria sido uma salvação física?”
4. Cultivar a piedade persistentemente. Agora aparece uma nova figura no palco da política mundial: Dario, o rei dos medos. Uma das suas primeiras providências como novo rei foi uma reforma administrativa. Ele subdivide seu gigantesco império: Mesopotâmia, Síria, Fenícia, Israel. Além dos 120 sátrapas, ele ainda institui três supervisores como espécie de instância intermediária entre ele e os sátrapas. Um desses foi Daniel. Assim, Daniel assume um alto posto no governo. Ele é bem-sucedido e faz carreira. Fé em Deus, bem como progresso e sucesso não se opõem, mas são perfeitamente compatíveis.
No entanto, Daniel encara a intriga da oposição. Seu sucesso desperta os invejosos que sabem exatamente por onde pegá-lo. Como seu procedimento é ilibado, resta só a sua fé como aspecto vulnerável. Eles intervêm junto ao rei. Pedem que este outorgue uma lei que proíba orações a um deus estranho. O fato de essa lei ser lavrada por escrito confere-lhe um peso particular.
A reação de Daniel a esse decreto é impressionante: “Quando Daniel soube que o decreto tinha sido publicado, foi para casa, para o seu quarto, no andar de cima, cujas janelas davam para Jerusalém e ali fez o que costumava fazer: três vezes por dia ele se ajoelhava e orava, agradecendo ao seu Deus” (6.10).
Daniel não se perde em agitação ou pânico, nem se torna agressivo. Ao contrário, ele mantém com toda a calma seu hábito de orar três vezes ao dia. Daniel também não contemporiza. Teria sido compreensível interromper as orações por apenas trinta dias! Ou então orar com as janelas fechadas. Nada disso é relatado. Daniel resiste à pressão por adaptação. Cultiva seus hábitos persistentemente e assim permanece fiel ao seu Senhor. A oração de Daniel torna-se uma confissão de fé.
Passamos hoje por uma situação agitada no relacionamento com os muçulmanos. Quem arriscará dizer que as diferenças entre o islã e o cristianismo são intransponíveis? Quem arriscará dizer que o cristianismo e o islã jamais poderão se irmanar?
Em nossos dias, a oração corre perigo. Ou não encontramos tempo para ela ou achamos que se pode perfeitamente renunciá-la. Perguntaram ao velejador Gebhard Rollo, que deu a volta ao mundo, se também havia orado no percurso. Sua resposta: “Não! Isso é para os fracos”. Este é o espírito que nos cerca. Como, porém, pode sobreviver espiritualmente uma cristandade que deixou de orar ou que não encontra mais tempo para a oração? Sem a oração, a fé não tem como encarar a diáspora. Daniel conhecia esse segredo, e por isso ele mantém seus horários de oração.
Por meio da oração, Daniel imprime um foco à sua vida. Simbolicamente, isso se expressa pela orientação a Jerusalém que ele dá à oração. Sem tal orientação diária, nossa fé será frágil e nosso relacionamento com Deus, superficial. Hábitos espirituais como um horário certo de oração por dia são uma ajuda para conferir um perfil à nossa fé. Eles ajudam a nos orientar, purificar e clarificar. Particularmente em nossos tempos tão inundados pela mídia, tais hábitos representam um auxílio genuíno.
5. Manter viva a esperança pela volta do Senhor. O sétimo capítulo do livro de Daniel abre um novo horizonte. Em primeiro plano estão as visões de Daniel sobre o futuro do mundo e do reino de Deus.
Antes de tudo, Daniel vislumbra os quatro ventos (mensageiros de Deus) que movem o mar (dos povos). Toda a humanidade está em rebelião contra Deus. Essa rebelião encontra sua expressão concreta na forma dos quatro animais que se elevam do mar dos povos. Trata-se de potências humanas que, desvinculadas de Deus, trazem em si um caráter animalesco. A sequência dos animais é leão com asas de águia, urso, leopardo e um aterrorizante animal desconhecido.
Na Bíblia, o leão e a águia são figuras dos grandes impérios (cf. Jr 2.15; Ez 17.3). No entanto, o reino sobre-humano do leão é debilitado. Arrancam-se as asas dele e ele recebe um coração humano. O reino poderoso torna-se fraco, humano e temeroso. Muitos aspectos sugerem tratar-se do império persa, diante de cujo poder todo o mundo estremecia. Ao final, porém, ele é atropelado por Alexandre, o Grande (cf. Dn 8.4,7). A característica do urso é, além da sua força, seu apetite insaciável. O urso se levanta. Assume posição de ataque. Na boca ele ainda carrega três costelas, restos da presa que acabou de devorar. Mal abateu uma vítima, ele já busca a próxima. A interpretação encaixa-se bem em Alexandre, o Grande e o seu império. Já no leopardo destacam-se as quatro asas e cabeças. Elas representam o poder de abrangência mundial desse animal. Sua interpretação se encaixa melhor no mais universal dos antigos impérios – o Império Romano. Este torna-se precursor do império mundial anticristão. O quarto animal tem caráter próprio – ele é terrível e destruidor. Os dez chifres são expressão do seu imenso poder. O chifre pequeno (o décimo-primeiro) que brota dele pode ser atribuído à pessoa do Anticristo.
Vemos aí na Escritura Sagrada pela primeira vez a figura do Anticristo. Ele emerge do mar dos povos e alcançará um poder inacreditável. Seu objetivo é destruir a igreja de Deus e abolir os tempos, as ordenanças e as leis que Deus deu a este mundo. Ele possui algo de totalitário e assumirá o lugar do próprio Deus. Como “homem do pecado” (2Ts 2.3-4,8; cf. Mt 24.12), ele abolirá a ligação entre a consciência e os mandamentos de Deus. Ele anuncia o amor, a guarda contra o sofrimento, o alívio na luta pela vida e tudo aquilo que finalmente libertará a sexualidade daquilo que a restringe. Ele elimina a vida nascitura. “O Anticristo incorpora, representa e proclama aquilo que no presente momento mundial é o humano, o evidente, o que merece aprovação e o absolutamente indispensável” (Manfred Seitz). Finalmente, a carta de João diz que ele nega a divindade de Jesus Cristo. Ele representa uma forma de fé. Ele talvez ainda saiba dizer “Jesus”, mas não mais que este é o Cristo. Neste ponto há controvérsias. Na linguagem moderna, o seu espírito se manifesta onde Jesus é considerado apenas um mestre ético, mas não mais Senhor e Salvador do mundo.
A atual igreja evangélica se cala sobre essa misteriosa figura do Anticristo. Existe aí uma espécie de “correção clerical”, um acordo tácito sobre o que se pode dizer publicamente na igreja para não ser condenado como conservador, fundamentalista, anticientífico, biblicista ou excessivamente piedoso. É preciso discernir os espíritos. A Bíblia adverte contra a sedução anticristã.
Agora, porém, abre-se neste sétimo capítulo mais uma outra porta. Além da figura do Anticristo, Daniel vê ainda uma outra. É o Filho do Homem que vem do céu e a quem Deus concede todo o poder e toda honra. O Filho do Homem é considerado o soberano escatológico investido por Deus. Este não é outro senão Jesus Cristo. Deus envia o Filho do Homem ao nosso mundo dominado pelo reino animal para redimi-lo e vencer o animal. É em direção a este último confronto que caminhamos como igreja de Jesus Cristo. Cristo terá a última palavra. Ele vencerá o poder do Maligno. Cabe sustentar a esperança pelo retorno do Senhor que predomina sobre todos os poderes e autoridades deste mundo.
Daniel nos mostra como podemos, na condição de cristãos, resistir à pressão por adaptação. O capítulo 12 diz: “Mas você, Daniel, feche com um selo as palavras do livro até o tempo do fim. Muitos irão por todo lado em busca de maior conhecimento”. – A Palavra de Deus é o que nos sustenta, que nos abre os olhos e dá forças para resistir. Nossa missão como igreja é guardar a Palavra de Deus de forma autêntica, como um diamante em sua pureza e transparência.

domingo, 5 de maio de 2019

Cuidado com os cães!


Cuidado com os cães!

Nathanael Winkler
Em Filipenses 3.2 lemos: “Cuidado com os ‘cães’, cuidado com esses que praticam o mal, cuidado com a falsa circuncisão!”. Paulo passa esse tipo de advertência em quase todas as suas cartas. Ele adverte contra falsos mestres que penetram na igreja e ensinam algo diferente do que Paulo e os apóstolos. Ele descreve os falsos mestres como cães, como quem pratica o mal e como aqueles que introduzem uma falsa circuncisão. Quando se trata do evangelho, Paulo não contemporiza. Do ponto de vista atual, isso não é “politicamente correto”. Em nossos dias, muitos – especialmente políticos – procuram enfeitar o que dizem para de modo nenhum ferir alguém. Paulo, no entanto, não pode tolerar nada que afaste da doutrina da graça.
Quem são os cães a que Paulo se refere? Naqueles tempos, os cães eram diferentes daqueles que conhecemos hoje. Para nós, o cão é um animal doméstico e é tido como agradável, gentil e o melhor amigo. Naqueles tempos, porém, os cães eram selvagens, circulavam em bandos e só viviam em busca de vítimas. O mesmo comportamento é o dos falsos mestres que penetram na igreja. Eles procuram a quem possam devorar e onde estão os pontos fracos.
No Salmo 59.4-5 diz: “Mesmo eu não tendo culpa de nada, eles se preparam às pressas para atacar-me. Levanta-te para ajudar-me; olha para a situação em que me encontro! Ó Senhor, Deus dos Exércitos, ó Deus de Israel! Desperta para castigar todas as nações; não tenhas misericórdia dos traidores perversos”. Davi descreve aqui os descrentes, os pagãos. Mas em quem Paulo pensa? De certo modo, Paulo também se refere aos descrentes. Em Filipenses 3.3 ele enfatiza: “Pois nós é que somos a circuncisão”. Os falsos mestres eram judaístas e pregavam a circuncisão. Afirmavam que os crentes deveriam circuncidar-se para serem membros efetivos da igreja.
Paulo era judeu e em geral enfrentava oposição dos judeus. Aonde quer que ele fosse, seu primeiro destino era sempre a sinagoga. De fato, esse era o melhor ponto de partida para evangelizar numa cidade. Em geral, os judeus causavam então algum tumulto por não concordarem com Paulo. Onde há tumulto, costuma juntar gente para ver o que há. Uma oportunidade como essa pode ser aproveitada para pregar a todos. Assim, naquele tempo viviam no Império Romano muitos judeus espalhados por toda parte, e Deus usou essa situação para divulgar o evangelho. Paulo enfrentava oposição por perseguição. Os judaístas ensinavam “Jesus e a circuncisão” ou “Jesus e o sábado” ou “Jesus e uma outra lei”. Não era mais a graça somente.
Se alguém pregar um evangelho diferente daquele anunciado pelos apóstolos, ele será um falso mestre e amaldiçoado.
Paulo identifica esses “cães” também com “esses que praticam o mal”. O termo “praticam” designa pessoas ativas e que, nesse caso, vêm trazer um outro evangelho. Esse também era o problema das igrejas na Galácia: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que pregamos a vocês, que seja amaldiçoado!” (Gl 1.6-8). Também aqui Paulo não deixa dúvidas. Ele diz que, se alguém pregar um evangelho diferente daquele anunciado pelos apóstolos, ele será um falso mestre e amaldiçoado.
Esses “que praticam o mal” talvez fossem externamente perfeitos, talvez seu estilo de vida parecesse impecável. Talvez tais pessoas tenham sido observadas e tenham impressionado com sua aparência exemplar e decente. No entanto, não devemos deixar-nos enganar: Satanás não é tolo, ele sabe como pode seduzir os crentes. Em Filipenses 3.18 Paulo escreve em prantos: “Pois, como já disse repetidas vezes, e agora repito com lágrimas, há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo”. O apóstolo conhece o mal que esses inimigos poderão provocar. Ele adverte os filipenses a ficarem atentos e, com respeito aos judaístas, que deverão guardar-se do legalismo.
Tendemos facilmente a pensar que devemos oferecer algo a Deus para receber algo dele. É a natureza humana: se eu trabalhar, serei remunerado. Em parte, também pensamos assim em relação à obra da redenção: preciso fazer algo a fim de merecê-la.
Não, nós nada podemos oferecer a Deus. Jesus Cristo realizou tudo por nós. É graça e apenas graça. Será que isso significaria então que podemos fazer o que bem entendemos? Não, um cristão que pensa assim precisaria se questionar se ele realmente experimentou um novo nascimento. Um cristão em quem realmente habita o Espírito de Deus desejará viver segundo o padrão de Deus. Ele será transformado pelo Espírito de Deus. Mas se começarmos a pregar a necessidade de praticar isso e mais aquilo para conquistar a salvação, como por exemplo guardar sábados e determinadas festas, observar leis de pureza, jejuar, confessar-nos, isto será um outro evangelho, que não encontramos na Bíblia.
Naquele tempo, o que penetrava na igreja eram os judaístas e adicionalmente as marcas das religiões pagãs. E como é a situação nas nossas igrejas? Em Mateus 7.21-23 lemos: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!”.
Trata-se aqui de pessoas ativas na igreja, mas cuja motivação não é bíblica. Nem são renascidas e penetram na igreja por ganância. Essa gente, que Paulo chama de “cães” e praticantes do mal, introduzirá uma falsa circuncisão.
Teria Paulo algo contra a circuncisão? Em Filipenses 3.5 ele diz de si mesmo: “Circuncidado no oitavo dia”. Mas ali ele fala da sua vida quando ainda não era crente. Contudo, o que foi que ele fez depois com Timóteo? Atos 16.1-3 relata: “[Paulo] Chegou a Derbe e depois a Listra, onde vivia um discípulo chamado Timóteo. Sua mãe era uma judia convertida e seu pai era grego. Os irmãos de Listra e Icônio davam bom testemunho dele. Paulo, querendo levá-lo na viagem, circuncidou-o por causa dos judeus que viviam naquela região, pois todos sabiam que seu pai era grego”.
Paulo circuncidou Timóteo. A mãe de Timóteo era judia e sua circuncisão era uma expressão do seu pertencimento ao povo de Israel. Ele era judeu, e por isso não havia nenhum problema em que ele se circuncidasse. A circuncisão foi feita para que ele não escandalizasse os judeus. Paulo mesmo escreveu que ele se tornou judeu para os judeus e grego para os gregos (1Co 9.20-21). Esse foi um passo muito sábio de Paulo a fim de não se expor desnecessariamente a ataques. No entanto, isso de modo nenhum significa que ele pregasse a circuncisão. Ele enfatizava que aqueles que introduziam a falsa circuncisão exigiam a circuncisão de todos.
Também nós precisamos ficar atentos em relação ao judaísmo para não nos ocuparmos com coisas que nos conduzam de volta à lei da antiga aliança ou de introduzi-las em nossa vida, afastando-nos assim da graça de Cristo. Pergunto-me por que um cristão deveria de repente colocar um quipá na cabeça se o Senhor e os apóstolos não mandaram fazer isso. Talvez alguém goste disso, mas o faz para quem? E se alguém quiser guardar o sábado, que o faça, mas então essa pessoa deveria guardar ainda muito mais da lei da antiga aliança. Temos alguém que cumpriu toda a lei: Jesus Cristo. Ele nos salvou. O objetivo de Paulo era anunciar que não precisamos mais retornar à lei.
Deus não quer que vivamos a nossa fé em função da nossa própria força, porque assim fracassaremos.
Ele explica: “Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (Fp 3.3, RA). Nós que pertencemos a Jesus Cristo é que somos a circuncisão, tanto gentios como judeus. Deus não quer que vivamos a nossa fé em função da nossa própria força, porque assim fracassaremos. A nossa própria força nos levará ao desespero.
Quando Paulo enfatiza aqui o termo “carne”, ele não se refere a algum comportamento pecaminoso. A lei não é pecado; antes, a lei revela a nossa pecaminosidade. Quando a Bíblia fala de carne, geralmente ela trata da oposição entre a carne e o espírito. Muitas vezes interpretamos a ideia de “carne” como pecado, imoralidade, adultério, prostituição, mas aqui não se trata de pecado e sim de algo que queremos alcançar na carne por meio da nossa própria força. A carne é a essência do “eu”: eu preciso fazer, eu preciso cumprir a lei, eu preciso orar cinco vezes por dia etc. Confiar na carne busca uma redenção por obras – e nesse caso estaríamos perdidos. Quando vivemos no Espírito, não nos orgulhamos do nosso próprio desempenho, mas tão somente de Cristo, e é exatamente isso que Paulo faz nos versículos seguintes, em que ele mostra que, se um judeu pudesse orgulhar-se de tudo aquilo que conseguiu por meio da carne, então esse judeu seria ele mesmo. Mas Paulo considera tudo isso como perda, como lixo. Para Paulo, Jesus Cristo tornou-se tudo.
“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos” (Ef 2.8-10).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A Nova Moda das Igrejas





A Nova Moda das Igrejas: Ambientes Escuros e Negros!


Depois, no decorrer dos dias, algumas dessas igrejas pintaram as laterais do templo e algumas delas pintaram o forro de preto, e depois pintaram por fora todo o templo de preto! No entanto, as explicações que me deram não me convenceram. Por isso, saí a pesquisar sobre a função da cor preta, especialmente na arquitetura moderna e nos comerciais de televisão. Eu carecia de uma explicação científica sobre o porquê pintar todo o templo ou salão de reuniões de preto.
Alguns especialistas afirmam que o preto é uma “não cor”; para outros o preto é a ausência de cor, enquanto para outros o preto engloba todas as cores! Vi o vídeo ([i]) em que André Valadão no The Noite se orgulhou do que fez com o púlpito da igreja da Lagoinha e passei a pesquisar sobre igrejas contemporâneas.
Em todos os sites pesquisados notei que as informações científicas são mínimas e porque não dizer irrisórias. Os vídeos e comentários dos pastores que defendem a cor preta são sofismas facilmente contraditados pela ciência. Um desses pastores argumentou que o templo verdadeiro não foi pintado de preto, porque o verdadeiro templo é a igreja, isto é, o povo, e que dá menos trabalho, porque a sujeira e a poeira não aparecem tanto! (Acho que vou trocar a cerâmica branca do piso de minha casa por cerâmica preta – risos).
Imaginei, então, que consultando os especialistas em cromoterapia, isto é, quem procura trazer alívio e cura às pessoas pela cor teriam algo a dizer, mas, aí encontrei resposta á pergunta: Até que ponto considera-se a cromoterapia uma ciência? Ora, a cromoterapia é uma pseudociência: “Cromoterapia é a prática pseudocientífica de utilizar cores na cura de doenças, a qual vem sendo utilizada pelo homem desde as antigas civilizações — Egito antigo, Índia, Grécia e China — com o objetivo de harmonizar o corpo, atuando do nível físico aos mais sutis”. Interessante que verificando o uso das cores na cromoterapia não encontrei o preto nem a importância da cor preta na cura de pessoas! ([ii]).
Gostei do que disse a professora Ana Luiza Fernandes, jornalista, mestre em Ciências da Comunicação ao afirmar que “a cor preta não favorece a comunicação, e pela falta de energia estimula a individualidade e evita a troca entre as pessoas. Além de estimular a teimosia, que é a consequência da falta de comunicação e do excesso de individualidade” ([iii]). Hum! Essa declaração dela me preocupou, porque um dos principais problemas das pessoas hoje é o senso de isolamento, apesar dos recursos das redes sociais.
Um dos sites a que consultei informou que a cor preta é a cor do ocultismo, da magia e do mistério e lembra o cosmos e o universo – o que me levou a pensar nos “buracos negros”, o terror dos viajantes espaciais!
No vídeo da Igreja Multimídia, Rodrigo Kashima explica as razões de se usar a cor preta em boates, clubes, cinemas e teatros e, indiretamente defende o uso da cor nos templos das igrejas porque elimina a distração e prende o foco das pessoas a quem está na plataforma. Mas, também não apresenta uma explicação científica plausível, apenas técnica. Eu gostaria de, além de ter uma resposta científica saber que influência o preto tem na religião! Na realidade, a cor preta serve para que a luz foque apenas o homem na plataforma. Ele é o show!
Na cultura da igreja usa-se o preto apenas dois dias por ano: Sexta-feira da Paixão e sábado de aleluia! Sobre as cores usadas no calendário litúrgico, sabe-se que a cor branca é usada na Páscoa e no Natal. A cor vermelha, no dia de Pentecostes, para lembrar o Espírito Santo; a cor verde é usada nos domingos comuns; o roxo no advento e na páscoa, e o preto, é usado como sinal de luto. O preto em todos os dias de culto seria um ato profético dessas igrejas anunciando a morte de alguma coisa?
Assim, o preto como adorno nos cultos da igreja, é usado na decoração da mesa da eucaristia na sexta-feira da paixão e no sábado um dia antes da páscoa. No domingo de páscoa sai de cena e entra a cor branca para anunciar a ressurreição do Senhor. Nesta ocasião se adorna a mesa com toalhas brancas e, se possível, com flores e lírios brancos sobre a mesa!
Depois de ler e ouvir vídeos a respeito, concluí que:
1. A cor preta, usada em ambientes como teatros, cinemas e casas de shows serve para que as pessoas direcionem o foco de seu olhar e de sua atenção para o palco, e não se distraiam com alguém passando ao seu lado nem com pessoas mal vestidas ou bem vestidas com roupas coloridas. Seu foco está no palco! Na tela do cinema. Assim, ninguém dispersa o olhar! Isso acontece também nos templos pintados de preto, com uma diferença, que o leitor verá no ponto seguinte:
2. Nos templos e salões de reuniões da igreja a cor preta serve para destacar o palco em que o pastor, o dirigente do culto e os músicos são vistos com suas calças coladas, suas camisas atraentes, suas tatuagens e colares, o que traz implícita a ideia de show.
3. A cor preta esconde as pessoas uma das outras e as tornam “invisíveis”.  As pessoas que gostam desses ambientes escuros das igrejas não querem ser notadas nem observadas, o que estimula a individualidade e o egocentrismo. Ora, vive-se num tempo em que as pessoas estão isoladas, em completa solidão, e que, apesar de terem suas redes sociais, com muitos “amigos”, estão sós. E não sei se a igreja deve contribuir para fechá-las ainda mais em seus isolamentos sociais.
4. A cor preta desestimula a comunhão entre os irmãos que é feita principalmente pela visualização. Com a ausência de cor – o preto é ausência de cor – os irmãos não conseguem ver uns aos outros, e, assim como entram voltam para suas casas, a menos que já tenham construído relacionamentos saudáveis, o que não acontece com os visitantes! Para muitos, a comunhão se dará na calçada ou nas pizzarias, a menos que se abra espaço para que se tomem drinques e cafezinhos no intervalo dos cultos.
5. Os que defendem o uso da cor preta como fundo de palco – e vários de meus amigos a usam afirmando que para as gravações de vídeo é melhor, e de que o preto serve para destacar as pessoas nas gravações de vídeos de suas igrejas, e que escondem a bagunça das caixas de sons e instrumentos musicais, tem sua argumentação derrubada, quando se vê que nos principais estúdios de tevê das emissoras do país, pelo menos nos noticiários não se utiliza o preto, mas uma variedade de cores, e seus vídeos ou gravações são muito lindos!
Não quero ser contendedor, e se o fosse argumentaria biblicamente sobre a cor preta usando as várias passagens em que Jesus fala de trevas e da noite sempre com um sentido negativo. Até mesmo Paulo falou da questão da noite como algo negativo. Porque trevas falam de coisas ocultas, por isso, Lucas, quando registra que na reunião dos irmãos havia muitas “lâmpadas no cenáculo” (At 20.8) onde estavam reunidos, está dizendo a Teófilo, a quem dirigia o livro, de que aqueles irmãos não estavam se reunindo secretamente, e não infringiam a lei romana que proibia reuniões em lugares secretos, e sim, que podiam ser vistos pela guarda romana da cidade. Quem sabe se alguma lei federal exigir que não haja reuniões secretas, as igrejas voltarão a escancarar as portas e deixar os templos e salões bem iluminados!
Obviamente que os mais bíblicos e espirituais derrubariam minha argumentação afirmando que Deus mora nas trevas e que faz das trevas seu esconderijo, como afirmam vários versículos dos Salmos. Alguns usarão a declaração de Salomão que afirmou: “o Senhor declarou que habitaria em trevas espessas!” (1 Rs 8.12). E habita, realmente em trevas, porque Salomão se referia ao fato de que a nuvem que cobria o monte Sinai e a arca da aliança com os querubins era escura, negra, e encobria a presença de Deus para que o homem não morresse. A pergunta que faço é: Hoje, a cor escura encobre o quê? Estará encobrindo a presença de Deus para que o homem seja visto?
E, como não encontrei uma resposta científica plausível quanto ao uso do preto como tela de fundo para destacar as gravações, nem no estudo da cromoterapia, pediria aos meus leitores que enviem publicações científicas a respeito deste tema; se as encontrarem, porque até agora o que encontrei está no terreno do esoterismo!
É difícil para qualquer membro antigo de igreja, acostumado à luz, assimilar o fato de que a cor preta dos templos e salões de reuniões significa contemporaneidade. Afinal, dizem: Durante dois mil anos de crescimento da igreja não se usou a cor preta, bem ao contrário, os locais de reuniões eram limpos, claros e por vezes coloridos! Por que razão nunca se precisou do preto? Concordo com eles, porque o foco era sempre Cristo, a luz, a vida, a ressurreição, enquanto nos dias de hoje o foco deixou de ser Cristo, para ser o homem; e o evangelho light, fofinho que não machuca ninguém!
Desconfio, e estou estudando a respeito, que deve existir uma ligação espiritual ainda não perceptível em tudo isso! E, se o descobrir escreverei a respeito.
As pessoas mais velhas cresceram em ambientes de igrejas cheios de luzes, em que os antigos vitrais coloridos dos templos transmitiam uma sensação de paz e tranquilidade ao frequentador do culto dominical. Quanto mais claro o ambiente, mais paz de espírito se sentia! As cores dos vitrais refletiam no templo os raios solares coloridos.
O argumento é de que se trata de uma inovação cultural positiva.
Quanto a questão da inovação, deixe-me pontuar aqui uma coisa: Eu fui um inovador na questão da hinódia da igreja a partir da década dos anos 70, mas foi uma inovação sadia que levava as pessoas a uma vida de adoração e de compromisso com Cristo e não como uma novidade a mais! Sempre acreditei que música é cor e energia, e por vezes imaginava que a marcha fúnebre representava um quarto escuro, cheio de intensas trevas, momentos de tristeza e choro, enquanto cânticos de louvores a Deus flutuavam angelicalmente nas cores do arco-íris.  Posso dizer sem medo de errar: No céu não tem negrume! Lá deve ser tudo claro! Agora, por que Jesus falou tanto em trevas eternas?
Meus livros, a respeito do tema mudaram o conceito de louvor e adoração de várias gerações. Se por um lado fez bem naquele tempo, hoje louvor e adoração tomaram rumos desastrosos até mesmo em igrejas históricas, que eu não esperava! Porque sempre ensinei um louvor Cristocêntrico, sem shows, em que os músicos não precisavam vestir o paletó do diabo para serem vistos, apenas Cristo era glorificado. A propósito, “vestir o paletó do diabo” é o título de um artigo que escrevi anos atrás, falando dos cantores e músicos que precisam imitar o mundo para serem vistos!
Nenhum de nós é Amish, pessoas que vivem no passado, sem energia elétrica nem carros, e se deslocam de carroças; nada disso ([iv]). Somos modernos quanto a tecnologia desde que essa contribua para divulgar a essência da mensagem do evangelho. O problema é que alguns pastores não se deram conta de que mudaram o evangelho pela tecnologia que usam!
Quando sou convidado a pregar nas igrejas que utilizam o preto, limito-me a pregar a palavra de Deus, sem condená-los, ainda que tenha que fazer um enorme esforço para ler o texto bíblico e ver as pessoas no auditório! Dia desses não conseguia ler a Bíblia, porque não havia luz e nem um apoio para a Bíblia. Trouxeram-me, então, uma caixa de som e a colocaram sobre uma cadeira onde apoiei a Bíblia!
Sei que estou pisando em areia movediça, e que não serei entendido e que perderei espaço para pregar nas igrejas, mas, para mim – e enfaticamente o digo – para mim trata-se de uma cor esotérica, fúnebre, que infunde respeito pela morte, isolamento e solidão. Para outros representa tristeza e reverência, não aquela reverência alegre que se tenha num culto de adoração, mas uma reverência de tristeza e luto! Ora, a tristeza e o luto em algum momento do culto devem dar lugar a alegria e gozo!
Aliás, no cântico, “no Santo dos Santos a fumaça me encobre”, posso afirmar que a única fumaça hoje é a fabricada pela maquininha de gelo seco nos palcos! Porque se a nuvem de Deus descer na igreja os crentes saem correndo ou desmaiam, como fizeram alguns sacerdotes, na inauguração do templo de Salomão. Não fica ninguém em pé!
Também me acostumei a associar o preto como a cor dos cabarés de beira de estrada com suas luzes vermelhas, com os clubes de dança onde poucos se veem, em que as luzes coloridas misturadas ao preto provocam alucinações aos frequentadores.
O preto lembra o pecado, a tristeza, o velório e a dor.
Em contrapartida observo que alguns centros de umbanda estão usando o branco em seus salões envidraçados com muita luminosidade para que os transeuntes enxerguem do lado de fora o que passa no lado de dentro, enquanto nós nos escondemos na escuridão para que os de fora não enxerguem o que se passa no lado de dentro!
Fica aqui minha observação. Respeito a opinião de cada pastor, e proponho que sigam na direção que Deus lhes deu neste mundo de novas ideias sem que se dilua a mensagem do evangelho!
Ficaria contente se nesses templos pretos e sem luminosidade os pastores pregassem contra o pecado, falassem da necessidade de arrependimento, da necessidade da purificação pelo sangue de Cristo; se os pastores levassem as pessoas a mudarem de vida para que sejam libertas dos demônios e batizadas no Espírito Santo; se houvesse manifestações demoníacas nos cultos – raridade hoje – e se parassem de pregar sobre autoajuda e conclamarem seus ouvintes a uma mudança radical de vida. Repito, se tudo isso ocorrer dentro de um ambiente preto e lúgubre, voltarei atrás no que escrevi! Mas, de maneira geral muda-se a cor do templo e muda-se também a “cor” do evangelho!
Concluindo uso aqui as palavras do pregador e avivalista Charles Spurgeon:
“O fato é que muitos gostariam de unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças. Se nos encontramos incapazes de frear essa enxurrada, podemos, ao menos, prevenir os homens quanto à sua existência e suplicar que fujam dela. Quando a antiga fé desaparece e o entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras coisas que lhes tragam satisfação. Na falta de pão, se alimentam com cinzas; rejeitando o caminho do Senhor, seguem avidamente pelo caminho da tolice.”

[iv] Os Amish são um grupo religioso cristão anabatista, baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Massacre é coisa do Diabo!


Massacre é coisa do Diabo!

Daniel Lima
Na semana passada tivemos mais uma versão brasileira de um massacre escolar. Dois indivíduos fortemente armados invadiram uma escola e mataram pelo menos oito pessoas para, logo em seguida, se suicidar. Os detalhes são muito semelhantes ao que já nos acostumamos a ver. Após o evento, várias pessoas tentaram obter ganhos políticos com críticas ao atual ou aos antigos governos; ao mesmo tempo, muita gente tentou compreender o que acontece na mente e coração de alguém para cometer um ato desses. Agredir e até matar alguém em um acesso de raiva, ou por uma ofensa, é algo atroz, mas segue uma lógica – ainda que distorcida. No entanto, invadir uma escola e matar crianças de modo indistinto entra no campo da insanidade.
A resposta da insanidade parece bastante razoável e remove de cena uma possibilidade muito assustadora: que nós seres humanos “normais” somos capazes de atrocidades. Assim, fico me perguntando se insanidade, neste caso, pode ser uma desculpa que nos isenta como sociedade de lidar com alguns fatores que têm um grande poder influenciador em atos assim. Neste texto, gostaria de propor que um massacre como esse é coisa do Diabo! Por favor, não estou dizendo que um ou outro dos rapazes estavam “possuídos por um demônio” (por “possuídos” quero dizer no sentido de que não sabiam o que faziam ou que seus corpos obedeciam a uma outra entidade que não eles mesmos).
Apesar de difícil, esse e outros atentados assim realmente me parecem coisa do Diabo. Não estou buscando inocentar ninguém, mas tentar ver o que há por trás de tais atos. E vejo um plano diabólico, pois a Bíblia fala com clareza que Satanás veio para “roubar, matar e destruir” (João 10.10). Eu vejo este plano que desemboca em massacres em muitos atos que como sociedade aprendemos a tolerar e achar muito normal.
Por exemplo, videogames de extrema violência – aqueles onde cometer atos de sadismo resultam numa pontuação maior – são veículos que promovem a agenda de Satanás. Quem produz, quem vende e quem joga jogos assim, quer conscientemente ou não, está promovendo uma agenda satânica. O mesmo pode ser dito de filmes ou séries que, de maneira muito hábil, elaboram um enredo em que a única solução é a violência extrema. Isso não significa que todo mundo que assiste a um filme violento vai reproduzir estes atos na vida real; no entanto, deixar que cenas assim sejam registradas em seu cérebro no mínimo aumenta nossa tolerância com esta mesma agenda. Não importa se o enredo justifica a violência, ou se o contexto faz com que atos de violência sejam percebidos como atos de justiça.
A Bíblia fala com clareza que Satanás veio para roubar, matar e destruir.
Uma outra área em que a agenda satânica é promovida são nossos relacionamentos. Há famílias em que os pais, seja por simples cansaço e desinformação, seja por conflitos pessoais ou por opções quanto a um estilo de vida, são afastados de um convívio mínimo com seus filhos. Há situações em que indivíduos são ridicularizados, traumatizados, violentados... sem que exista consequências para quem pratica tais delitos, ou acompanhamento para quem os sofre. De alguma forma, tanto o abandono daqueles que deveriam dar afeto quanto o abuso de companheiros em geral são também parte de uma agenda satânica.
Some-se a isso os repetidos escândalos em que criminosos julgados conseguem escapar com poucas ou nenhuma consequência, perpetuando a impressão de que “não dá nada mesmo”, e temos uma sociedade que promove um contexto de violência, abuso e impunidade. Por que estamos chocados com massacres assim? Ou talvez a pergunta melhor seria: por que ficamos indignados com este evento (o que certamente deveríamos) e não com suas bases (violência, abuso e impunidade)? Será que como sociedade podemos então simplesmente riscar nossa responsabilidade designando de insanidade um ato de tamanha crueldade? Paulo, ao escrever a Timóteo, lança este alerta:
1Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. 2Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, 3sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, 4traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, 5tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder... (2Timóteo 3.1-5)
A descrição acima parece se aplicar com facilidade à nossa própria sociedade. Deixe-me destacar apenas 3 palavras. No verso 2 Paulo afirma que os homens serão “egoístas” (amantes de si mesmos). Temos visto isso crescer e inclusive tornar-se base de legislação. Um dos mais fortes argumentos pró-aborto é que ter uma criança “interfere nos direitos reprodutivos da mulher”. Seguindo essa lógica, podemos terminar uma vida para que “eu” não seja prejudicado. Outra palavra é traduzida por “sem amor pela família”. A palavra no original significa sem afeto ou sem carinho. Podia ser traduzida por insensíveis. Mais uma vez, isso é visto com extrema frequência em nossa sociedade. Basta ouvir como pais se referem a seus filhos, e vice-versa. Por fim, no verso 3 temos, entre outras palavras que descrevem a falta de domínio próprio, o termo “cruéis”. A palavra no original significa não civilizado, bárbaro ou brutal. Este termo, dentre outros, descreve o massacre: foi um ato bárbaro, não civilizado, brutal ou cruel.
Não podemos, como sociedade, plantar violência, abuso e impunidade e esperar colher paz, harmonia e gentileza.
É impossível pensar neste massacre, olhar o estado de nossa sociedade e não lembrar de outra advertência do apóstolo Paulo: “De Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá” (Gálatas 6.7). Não podemos, como sociedade, plantar violência, abuso e impunidade e esperar colher paz, harmonia e gentileza.
Para nós cristãos, que nem sempre destoamos de algumas destas atitudes de nossa sociedade, nos resta continuar a ler a exortação de Paulo a Timóteo até os versos 16 e 17 do mesmo capítulo da segunda carta a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra”.
O massacre foi de uma extrema tristeza. Orei pelas famílias de todos os que perderam a vida de modo tão estúpido. Minha sincera oração é que nossa sociedade seja confrontada com suas próprias opções e se volte para o único que pode nos trazer a verdadeira paz. Não há outro caminho. Sem um quebrantamento, vamos testemunhar mais e mais massacres como este ou eventos tão trágicos quanto ele.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Como devemos enfrentar a iniquidade


Como devemos enfrentar a iniquidade?

Daniel Lima
Semana passada, o país foi tomado por pelo menos duas polêmicas que atingiram o mundo evangélico. De um lado nosso presidente compartilhando um ato indecente (perdoem-me os que entendem aquela encenação como arte). Muito embora sua intenção declarada era mostrar sua indignação, o resultado foi um tumulto que obscureceu seu intuito. A segunda polêmica foi a apresentação da escola de samba Gaviões da Fiel em São Paulo, em que um ator vestido de Satanás derrota um ator vestido de Cristo.
Segundo aqueles que realizaram a encenação obscena, o propósito era mesmo chocar, assim como a outra que foi blasfema. Em minha opinião, ambas são lamentáveis e até mesmo repugnantes, mas simplesmente retratam o que nossa sociedade tolera e, em vários momentos, até mesmo apoia. No entanto, por que estamos tão surpresos como cristãos? O que esperávamos de uma festa como o carnaval? Ou ainda mais: será que esses foram os atos que mais ofenderam a Deus? O que dizer sobre a violência contra mulheres, sobre prostituição infantil, sobre abuso de substâncias ou turismo sexual?
Nem por um momento estou tentando diminuir a gravidade do que foi veiculado, seja por nosso presidente, seja em uma passarela de Carnaval. No entanto, me parece que alguns cristãos ainda não se deram conta de que vivemos em uma sociedade não cristã. Nosso povo não é um povo pacífico (62.517 mortes violentas em 2016), não é um povo que valoriza uma vida familiar harmoniosa (221 mil queixas de violência doméstica em 2017), não é um povo que se caracteriza por discrição na área sexual (não vou nem apresentar números...) e, por fim, não é uma sociedade transformada pelo cristianismo. O “cristianismo” brasileiro é superficial, ritual e nominal.
Quando a igreja primitiva invadiu o mundo no primeiro século, aquela cultura se caracterizava pela imoralidade, pela injustiça social, pela falta de proteção de vulneráveis e por um paganismo institucionalizado.
Um dos equívocos da igreja ocidental é crer que de alguma forma nossa sociedade e nossa cultura são cristãs. Com isso usamos argumentos cristãos para tentar conter os abusos da própria sociedade. Houve uma época em que a cultura tinha um certo respeito (ainda que superficial) pelas verdades cristãs, mas este tempo já passou. Hoje vivemos em uma sociedade pagã, em muitos sentidos semelhante ao mundo greco-romano do primeiro século.
Esta perspectiva não deveria nos desanimar, mas indicar o verdadeiro contexto no qual vivemos e lutamos. Quando a igreja primitiva invadiu o mundo no primeiro século, aquela cultura se caracterizava pela imoralidade, pela injustiça social, pela falta de proteção de vulneráveis e por um paganismo institucionalizado. Ainda assim, aquele movimento desorganizado, imaturo e sem recursos “virou o mundo de pernas para o ar”. A confiança da igreja primitiva não estava em seu status perante a sociedade, não estava nas leis ou no respeito por suas instituições. Sua confiança estava no testemunho de vidas transformadas apesar do desprezo, hostilidade e perseguição em que viviam.
Como reagir então a uma sociedade que é hostil à nossa fé? Como apresentamos Cristo diante daqueles que não compartilham – na verdade até se opõe – ao que cremos? Como proclamar nossa fé em meio ao império das trevas? Novamente corremos para a Bíblia buscando orientação. Quando Jesus enviou os doze discípulos em sua primeira viagem missionária, suas palavras foram diretas e contundentes, tanto quanto ao que iriam enfrentar como quanto à instrução oferecida. Em Mateus 10.16-20 lemos:
16Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. 17Tenham cuidado com os homens, porque eles os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas suas sinagogas. 18Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. 19E, quando entregarem vocês, não se preocupem quanto a como ou o que irão falar, porque, naquela hora, lhes será concedido o que vocês dirão. 20Afinal, não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala por meio de vocês.
É curioso que a ilustração de Jesus não é a de que somos como valentes cães pastores que enfrentam os lobos pagãos. Sua escolha foi o exemplo de ovelhas, que têm como característica mais conhecida sua mansidão. Sua mansidão não é devido à passividade delas, mas à postura de que sua defesa depende do pastor de suas almas.
O contraste “serpentes x pombas” é muito curioso e instrutivo. A atitude da serpente é descrita como “prudente”. Esta palavra no original é geralmente usada no sentido positivo de cuidado, sabedoria ou discrição. Assim, por um lado devemos ser cuidadosos, sem buscar aparecer ou impressionar por nosso próprio poder. Por outro lado, somos chamados a estar no mundo sem malícia, sem jogo sujo, sem mentiras ou manipulações da verdade.
Quando formos confrontados quanto à nossa fé, quando formos constrangidos a nos manifestar, nosso papel é falar o que o Espírito Santo nos der para falar.
Jesus não esconde que somos vulneráveis e que seremos injustiçados. Ele não esconde que a própria lei será usada contra nós. Ele afirma que a sociedade será hostil contra nós. No entanto, sua ênfase está em nossa postura quando formos levados diante de autoridades. Nesse contexto não devemos nos preocupar com o que dizer, pois nossa vitória não está em argumentos astuciosos. O próprio Espírito Santo falará por nosso intermédio. Quando formos confrontados quanto à nossa fé, quando formos constrangidos a nos manifestar, nosso papel é falar o que o Espírito Santo nos der para falar.
Em resumo:
  1. Não devemos ser combativos, mas cuidadosos e sem malícia, preservando a Palavra de Deus sem hostilidade (ver Filipenses 2.14-16);
  2. A sociedade se voltará contra nós, seremos injustiçados e perseguidos (ver João 16.33);
  3. Nossa resposta deve ser espiritual e não conforme as discussões deste mundo (ver 1Pedro 3.15-16).
Minha oração é que tanto eu como você estejamos prontos a explicar a razão de nossa fé, mas, como instruiu Pedro, fazendo isso com mansidão e respeito. Que sejamos conhecidos pelo Espírito que habita em nós e não por nossa sagacidade e articulação.