segunda-feira, 23 de março de 2020

Esperança em meio a tragédia

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Esperança em meio à tragédia!

Daniel Lima
Medo! Estado afetivo suscitado pela consciência do perigo, imaginário ou fundamentado. O medo é uma presença constante na vida do ser humano. Por mais que cultivemos uma postura de suficiência própria diante de uma ameaça, nossa fragilidade rapidamente nos leva a um estado de alerta, de fuga ou luta, de medo. Já vi homens capazes e competentes entrarem em pânico ao perceber que coisas simples saíam do controle. Estamos vivendo uma onda de medo, em parte real, em parte exagerada diante da pandemia do coronavírus.
Enquanto alguns discutem se as igrejas devem ou não manter suas reuniões públicas (em locais onde ainda não existem ordens oficiais), eu gostaria de refletir sobre este momento, esta oportunidade. Quero ver esta pandemia como oportunidade, pois Deus não foi surpreendido. Na verdade, em seu plano soberano, esta tragédia foi entretecida juntamente com tudo mais que acontece. Diante disso, como o povo de Deus deve reagir? O que temos a dizer àquele que crê e ao que não crê diante do medo, mesmo do pânico?
Ao que crê, a melhor resposta é aquela dada por Paulo em Filipenses 1.20b-24:
Ao contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E já não sei o que escolher! Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo.
A morte do cristão não deve ser temida. Para nós, morrer é lucro! No entanto, muito ciente de seu chamado e de seu ministério, Paulo entendia que o tempo de sua partida ainda não havia chegado (cf. 2Timóteo 4.6). Diante disso, minha postura como cristão é ser um bom mordomo do corpo que me foi confiado, para que eu possa continuar servindo nesta vida enquanto o Senhor julgar conveniente. No momento em que ele julgar que meu tempo é chegado, creio que partirei com alegria.
Quero ver esta pandemia como oportunidade, pois Deus não foi surpreendido.
Mas o que dizer àqueles que não estão em Cristo? Como ministrar àqueles para quem morrer não é lucro, mas o passo final de sua jornada para a perdição? Deixe-me alistar algumas considerações:
  1. Aqueles que morrem sem Cristo estão condenados à perdição eterna (Mateus 25.41-46Lucas 16.22-23 e João 3.18);
  2. Para estes a pandemia deve inspirar terror, pois após a morte não terão mais chance de se converter (Hebreus 9.27);
  3. O medo causado pela pandemia é uma aflição por antecipação, pois, quem hoje teme a morte, teme algo que é certo, uma vez que todos morreremos. É a certeza, a iminência, o choque de realidade que têm levado muitos a entrar em pânico;
  4. A verdadeira esperança para este medo antecipado não é a cura do vírus. A esperança para a morte é a vida eterna em Cristo Jesus (Romanos 6.23). Devemos tomar providências para combater esta pandemia, mas também devemos tratar do mal mais profundo: o destino eterno daqueles que estão sem Cristo.
Alguém já disse que “a tragédia é o megafone de Deus”, pois nossa fragilidade é evidenciada em meio à tragédia. Como seres humanos, conseguimos mascarar o nosso vazio interior e nossas dúvidas sobre a eternidade, mas, diante da proximidade da morte, todo homem se depara com a questão do destino eterno. Sendo assim, entre tudo o que podemos e devemos fazer como cristãos, eu quero destacar nossa responsabilidade de proclamar a esperança que há em nós (1Pedro 3.15).
Em 2Timóteo 4.1-5, como parte de suas últimas instruções a Timóteo, Paulo escreve:
Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente: Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério.
A exortação de Paulo começa dizendo que devemos pregar a palavra; completando, ele afirma que devemos fazer a tempo e fora de tempo. Este é um momento em que muitos estão preocupados. A pandemia gerou um estado de alerta. A realidade da morte confronta a sociedade que se julgava tão poderosa e no controle. Este é um tempo de se considerar a salvação!
Minha postura como cristão é ser um bom mordomo do corpo que me foi confiado, para que eu possa continuar servindo nesta vida enquanto o Senhor julgar conveniente.
Paulo amplia o sentido de pregar usando as palavras “admoestar”, “repreender”, “exortar” e “ensinar”. Seu propósito é afirmar que pregar é muito mais do que um período dominical durante o culto cristão. Em um sentido amplo, eu prego quando encorajo, quando faço perguntas, quando ouço, quando ofereço perspectivas.
O apóstolo nos faz lembrar que haverá um tempo em que as pessoas só vão querer ouvir o que lhes agrada. Por isso tão poucos falam da realidade da morte ou do inferno. Parecem palavras antiquadas – quase medievais. No entanto, uma pandemia traz à tona o medo e a pergunta sobre nosso destino eterno. Minha oração é que você e eu tenhamos o mesmo foco e possamos aproveitar as oportunidades. Vamos lutar contra esta pandemia na medida de nossa mordomia, mas também vamos proclamar a fé naquele que nos resgatou do domínio das trevas para o reino de sua luz (Colossenses 1.13).

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O Exemplo


O Exemplo da Excelência de Calebe

Stephan Beitze
Um líder orientado espiritualmente, o crente consagrado, um verdadeiro servo de Cristo se destaca pela excelência com que executa todas as suas tarefas. O testemunho que o próprio Deus expressa sobre Calebe é algo impressionante. No entanto, gostaria de destacar uma frase: “... como o meu servo Calebe tem outro espírito...”. O “outro espírito” era demonstrado pelo fato de que Calebe procurava a excelência ao confiar no Senhor e ao estar cheio da sua presença. E isso acontecia em oposição ao espírito de descrença e do exemplo negativo dos outros dez espias. Calebe estava disposto a dar o seu melhor para a honra de Deus.
Lendo a história da conquista da Terra Prometida observamos a indolência, a descrença, a desobediência e a falta de empenho do povo. Na descrição dos limites da Terra Prometida e da área que foi atribuída a cada uma das tribos, consta reiteradamente que os israelitas não expulsaram os habitantes. Assim, a tomada de posse da terra não foi cumprida adequadamente. E isso mesmo quando Deus lhes havia ordenado expressamente e lhes havia prometido a vitória se o fizessem. Mas eles não obedeceram a Deus e por isso também não conseguiram obter a vitória. O único que novamente despontou foi Calebe. Apesar dos seus 85 anos de idade, ele liderou a conquista definitiva de Hebrom, a terra dos gigantes que eram os inimigos mais perigosos e que causaram tanto temor na geração anterior. Indiferença, acomodação e presunção não faziam o estilo de Calebe.
O “outro espírito” era demonstrado pelo fato de que Calebe procurava a excelência ao confiar no Senhor e ao estar cheio da sua presença.
Como cristãos, nós também devemos procurar a excelência em tudo. Isso não significa que precisamos nos tornar perfeccionistas, pois os perfeccionistas nunca ficam satisfeitos consigo mesmos e nem com os outros, e assim acabam ferindo as pessoas de seu convívio. Se Calebe tivesse sido um perfeccionista, certamente os anos quase intermináveis a mais vividos no deserto o teriam conduzido ao suicídio ou, por causa da decepção de não ter conseguido chegar à Terra Prometida pela via mais rápida, a uma profunda depressão.
Excelência não significa que alguém seja superior a todos os demais. Excelência é simplesmente ter o desejo e o empenho de fazer tudo da melhor maneira possível e de viver na plena dependência de Deus. No entanto, um cristão que procura a excelência não precisa simplesmente estar satisfeito com tudo; apesar disso, ele não fica com os braços cruzados, com críticas aos outros e ao que fazem, mas está disposto a se empenhar para mudar a questão para melhor. Esse empenho pessoal, sob a direção do Senhor, pode trazer efeitos impressionantes.
Em nossas igrejas infelizmente há muitos irmãos que se satisfazem apenas com um grau mínimo do desejável. Desses não precisamos esperar algum comprometimento, confiabilidade ou pleno empenho. Eles sempre encontram alguma desculpa. E quando resolvem fazer algo, então o fazem para agradar a alguém ou para receberem atenção.
Onde há falta de esforço por excelência, por exemplo, os professores das classes infantis de estudo bíblico se contentam em ler a história que transmitirão aos alunos apenas cinco minutos antes de ministrarem o estudo. Ou os irmãos que dirigem as reuniões ou cultos o fazem sem se prepararem para tanto em oração e sem escolher músicas e textos bíblicos adequados. Mesmo pastores e professores muitas vezes confiam em sua pretensa experiência e em sua facilidade de encontrar palavras certas, sem tomarem o tempo necessário para um profundo estudo da Bíblia e para oração. Precisamos nos admirar quando tantas vezes há tão poucos frutos espirituais e crescimento?
Uma característica marcante de nossa sociedade é a mediocridade, e esta tem o declínio por consequência. Aqueles que se esforçam pelo melhor não raras vezes são até ridicularizados ou zombados. Isso é observado já entre os jovens que se esforçam para obter boas notas: eles serão considerados depreciativamente como “nerds” pelos seus colegas de classe.
Martin Luther King Jr. certa vez afirmou: “Se alguém foi chamado para ser varredor de rua, ele deveria varrer as ruas com o mesmo empenho que Michelangelo pintava seus quadros, que Beethoven compunha suas músicas ou que Shakespeare escrevia suas obras. Ele deveria varrer tão bem as ruas de modo que todas as hostes celestiais e terrenas parassem para observar e dissessem: aqui viveu um grande varredor de rua, que fez um ótimo trabalho”.
Se Calebe tivesse sido um perfeccionista, certamente os anos quase intermináveis a mais vividos no deserto o teriam conduzido ao suicídio ou, por causa da decepção de não ter conseguido chegar à Terra Prometida pela via mais rápida, a uma profunda depressão.
O jovem Daniel e seus três amigos foram levados de sua terra e aprisionados na Babilônia. Eles foram obrigados a estudar muito para se adaptar à cultura, inclusive à cultura alimentar e à religião. Apesar da difícil situação, Daniel e seus amigos se portaram com excelência diante de seus superiores, pois eles não queriam infringir os mandamentos de Deus. Com isso eles foram reconhecidos como os mais sábios do reino (Dn 1.19-20). Posteriormente, Daniel também realizou seu trabalho com excelência, de modo que até seus inimigos reconheceram:
“Diante disso, os supervisores e os sátrapas procuraram motivos para acusar Daniel em sua administração governamental, mas nada conseguiram. Não puderam achar nele falta alguma, pois ele era fiel; não era desonesto nem negligente. Finalmente esses homens disseram: ‘Jamais encontraremos algum motivo para acusar esse Daniel, a menos que seja algo relacionado com a lei do Deus dele’.” (Dn 6.4-5)
Daniel procurava primeiramente alcançar essa excelência perante Deus, mesmo diante do perigo de que isso pudesse lhe custar a vida. Do mesmo modo como foi com Daniel, observamos também em Calebe esse “espírito de excelência”. Era o desejo incessante de fazer o melhor. E isso foi reconhecido por Deus. Daniel foi promovido pelo rei ao posto de autoridade responsável nas diversas áreas de atuação do governo. E Calebe, juntamente com Josué, foi reconhecido como excelente líder. Deus abençoa pessoas excelentes.
Nós mesmos deveríamos constantemente analisar a maneira como executamos nossas atribuições no serviço do Senhor para verificar se o fazemos do melhor modo, pois estamos no serviço do Rei de todos os reis, do Senhor de todos os senhores. Por isso:
“Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo.” (Cl 3.23-24)

domingo, 26 de janeiro de 2020

O livro de Daniel


A Legitimidade do Livro de Daniel

Roger Liebi
O principal ataque contra o livro de Daniel foi lançado pelo filósofo neoplatônico Porfírio, já por volta do ano 300 d.C. Em seu 12º livro contra os cristãos, ele classificou o livro de Daniel como uma falsificação da época dos macabeus (séc. 2 a.C.), argumentando que simplesmente não existia profecia verdadeira! Em especial no último século, muitos críticos da Bíblia começaram a retomar esse ataque, promovendo um verdadeiro assalto às profecias de Daniel!
Tentou-se apontar uma série de inconsistências históricas nesse livro, o que provaria que o livro de Daniel foi escrito não no sexto, mas no segundo século a.C. Elas demonstrariam que, por viver muito tempo depois, o autor tinha conhecimentos imprecisos a respeito da situação do século 6 a.C.

A confiabilidade histórica de Daniel

Contudo, a forma como o relato de Daniel concorda em detalhes com a história e com os costumes do século 6 a.C. é assombrosa! Os pontos a seguir reforçam isso ainda mais:
  1. Em Daniel 1.3-4 mencionam-se os critérios para selecionar os prisioneiros que receberiam formação especial: nobreza, inteligência e beleza física. Em harmonia com isso, uma tabuleta de argila babilônica registra as seguintes diretrizes para a escolha de adivinhadores: “... de descendência nobre, perfeitos também em estatura e constituição física”. Pessoas sem o conhecimento necessário para o cargo de “sábio” não eram aceitas.
  2. Escavações na Babilônia levaram à descoberta de um prédio que, de acordo com as inscrições nele encontradas, servia como escola para presos nobres.
  3. De acordo com Daniel 1.5, o período de treinamento de Daniel e dos demais prisioneiros escolhidos deveria durar 3 anos. Encontrou-se em textos babilônicos uma passagem afirmando que um músico do templo (que pertencia à classe sacerdotal) precisava “passar por um treinamento de três anos”. Essa concordância é muito interessante!
  4. Daniel 2.2,27 e 4.7 mencionam diversas classes de sábios. Isso reflete a realidade de que havia uma gama extraordinária de classes sacerdotais na Babilônia (mais de 30).
  5. Daniel 3 cita a pena de morte na fornalha, algo típico do Império Babilônico. Escavações na Babilônia também revelaram uma imensa fornalha, cuja inscrição deixava claro que ali eram mortos aqueles que se negassem a honrar os deuses babilônicos. É possível que a palavra em Daniel 3 para “fornalha” (attun) tenha sido emprestada do idioma babilônico.
  6. Em Daniel 6 (à época do Império Persa) menciona-se o lançamento aos leões como pena de morte. De acordo com os nossos conhecimentos atuais, essa era uma condenação típica dos persas!
  7. A narrativa em primeira pessoa no começo de Daniel 4, por exemplo, coincide com o costume literário das inscrições reais do Oriente Médio.
  8. Em Daniel 4.30, Nabucodonosor fala da “grande Babilônia que eu construí...”. As inscrições cuneiformes babilônicas confirmam que Nabucodonosor de fato reconstruiu a cidade, que em 680 a.C. havia sido totalmente destruída por Senaqueribe, rei da Assíria, transformando-a em uma das mais gigantescas maravilhas arquitetônicas da Antiguidade. Uma dessas inscrições reproduz a seguinte afirmação de Nabucodonosor: “... fiz uma cidade magnífica, digna de ser admirada [...] transformei a cidade da Babilônia numa fortaleza”.
  9. É digno de nota que Daniel 5.7,29 mostre Belsazar como mero corregente (“o segundo”). Por isso, ofereceu a Daniel apenas o terceiro lugar mais importante no reino!
  10. De acordo com Daniel 5, havia também mulheres participando da festa de Belsazar, em contraste com o Império Persa, onde as mulheres permaneciam afastadas (cf. Et 1). A história confirma que a posição da mulher no Império Babilônico era diferente do que entre os persas.
  11. O banquete mencionado em Daniel 5, pouco antes da conquista de Babel, é confirmado, entre outros, por Heródoto (485-425 a.C.) e por Xenofonte (430-355 a.C.).
  12. Daniel conservou sua alta posição política depois da queda da Babilônia (Dn 6). A história confirma que Ciro assumiu a equipe administrativa da Babilônia e manteve os atuais servidores nos cargos!
  13. De acordo com Daniel 2.12-13,46,48, um governante babilônico era absoluto e soberano. Já Daniel 6 mostra que os governantes persas estavam sujeitos à “lei dos medos e dos persas” (Dn 6.8,12,15; cf. Et 1.19; 8.8). Isso corresponde exatamente aos fatos históricos!
Todos os ataques da crítica bíblica ao livro de Daniel falharam! As informações históricas, arqueológicas e linguísticas disponíveis apontam claramente para a legitimidade do livro de Daniel, que, portanto, de acordo com suas próprias indicações, data do século 6 a.C.
Neste contexto, a palavra do apóstolo Paulo em 1Coríntios 1.19-20 encontra uma aplicação correta e marcante: “Pois está escrito: ‘Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes’. Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?”.

Afasta de mim esse cálice?


Afasta de mim este cálice?

Daniel Lima
Idade traz consigo alguns privilégios – e não me refiro a filas preferenciais. Idade pode trazer perspectiva, idade pode trazer sabedoria. Certamente idade traz memória. Ao ler o capítulo 18 de João fui remetido a uma destas memórias. Era a época do regime militar. A dupla Gilberto Gil e Chico Buarque era extremamente popular. Em um festival de 1973, tentaram cantar a música Cálice, mas foram impedidos pela censura. Em 1978, finalmente, a música foi liberada. Nelas os autores fazem um trocadilho entre a famosa passagem em que Jesus ora: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice” e a frase contra a censura que afirmava: “Afasta de mim esse cale-se”, em um claro protesto contra a censura determinada pelo regime militar. Os autores ganharam reconhecimento pelo trocadilho e a música brilhantes, mas acredito que perderam a consequência eterna do cálice que Jesus deveria e decidiu tomar.
A Bíblia comenta sobre pelo menos quatro cálices (não confundir com as sete taças de Apocalipse). Uma é a taça da consolação (Jeremias 16.7). Aqui Deus profetiza que haverá (como realmente houve) um tempo em Israel onde não existirá nem sequer um amigo para chorar contigo uma perda, ninguém para lhe dar o cálice da consolação. Um segundo cálice é apresentado no Salmo 23.5. Davi declara aqui sua experiência e confiança de que Deus traria a ele reconhecimento e honra. O terceiro é mencionado no Salmo 116.13. A expressão aqui é de gratidão pela salvação. O cálice é levantado, lembrando a prática dos brindes realizados em alguns momentos. O salmista ergue a taça da salvação, louvando a Deus pela salvação que é dele.
Em João 18.10-11, Jesus não está se referindo a nenhuma destas taças. O contexto é a noite em que Judas conduz o grupo dos soldados para prender Jesus. O texto diz:
10Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O nome daquele servo era Malco.) 11Jesus, porém, ordenou a Pedro: “Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?”
Jesus, apesar de ter pedido que o Pai afastasse dele o cálice (Mateus 26.39,42), também declara que seu compromisso primário é com a vontade do Pai. Sua pergunta a Pedro é retórica. Para ele, assim como para seus ouvintes, a única resposta possível seria “é claro que ele vai beber o cálice que seu Pai lhe deu”.
Pelo menos duas considerações vêm à minha mente diante deste texto. Este cálice é o cálice do juízo. É o cálice da punição pelos pecados. Deus, em sua santidade e integridade, continua totalmente alinhado com sua promessa em Gênesis 2.17: “... no dia em que dela comer, certamente você morrerá”. O pecado não podia ser deixado sem punição, pois ele afronta a própria identidade de Deus. Todo e qualquer pecado é muito mais que um deslize moral, justificado por circunstâncias ou condicionamento. O pecado é um punho levantado contra Deus em desafio a quem ele é. Neste sentido, estamos todos condenados... Paulo escreve sobre a graça diante desta realidade aterradora em Romanos 5.8-9:
8Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores. 9Como agora fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por meio dele, seremos salvos da ira de Deus!
O cálice que Jesus tomou era o cálice da ira, do juízo e da reprovação de Deus. Era a própria morte, pois Deus é vida e o pecado significa desafiar a Deus e abrir mão da vida verdadeira em troca de alguns momentos de satisfação e autoafirmação. Jesus, e só ele, podia tomar este cálice, por ser o único humano sem pecado. Desta forma sua morte (tomar o cálice) tornou-se a satisfação (propiciação) da ira de Deus.
A segunda consideração que me vem à mente é como eu reajo aos cálices que Deus me dá para beber? Sou imensamente grato por Jesus ter tomado o cálice da ira que era meu por merecimento. Ainda assim, Deus pede que nós, seus filhos, tomemos versões infinitamente menores de cálices para sua glória, para seu plano. Uma vez mais, Paulo escreve a respeito em Colossenses 1.24: “Agora me alegro em meus sofrimentos por vocês e completo no meu corpo o que resta das aflições de Cristo, em favor do seu corpo, que é a igreja”.
Todo e qualquer pecado é muito mais que um deslize moral, justificado por circunstâncias ou condicionamento. O pecado é um punho levantado contra Deus em desafio a quem ele é.
Paulo afirma que completa em seu corpo o que ainda falta das aflições de Cristo. Estas aflições que faltam completar não se referem à salvação, pois sua obra de salvação foi completa (1Pedro 3.18). No entanto, para que o corpo de Cristo seja estabelecido, para que seu evangelho seja proclamado, para que a igreja alcance todos os povos, sacrifícios precisam ser feitos. Desta forma imitamos a Jesus em sua vida e em seus compromissos. Você está completando o que resta das aflições de Cristo quando reage com graça ao ser ofendido, quando continua confiando mesmo diante da dor, quando se entrega à vontade de Deus mesmo que ela contrarie a sua. Você está tomando um pequeno cálice de dor para que o reino de Deus seja estabelecido, em seu coração, em seus relacionamentos e neste mundo.
É uma pena que os autores brilhantes da música Cálice não conhecem o final da história. Com isso perderam o maior dos reconhecimentos: ser chamado de filho de Deus! Jesus não rejeitou o cálice que o Pai lhe deu para beber. Diante disso podemos ter esperança de uma vida de eterna comunhão com ele. Eu oro para que você e eu, diante de cálices amargos enviados pelo Pai, digamos com fé e confiança: “Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?”.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Recomeçar...


Deus dos recomeços...

Daniel Lima
Nestes dias muitos estão comentando seus planos para o próximo ano, seja uma dieta, seja um novo emprego, um novo relacionamento etc. Embora as resoluções de ano novo estejam um pouco fora de moda, existe um ar de esperança para o ano que logo se inicia. Todos sabemos que isso não faz sentido, que na verdade é apenas uma data arbitrariamente estabelecida, mas continuamos com pelo menos uma ponta de esperança de que tudo vai melhorar no ano que vem... Parece que é natural ao ser humano esta ponta de esperança. Fomos feitos para algo maior, para algo melhor, assim, ficamos esperando este algo melhor chegar.
Eu creio que esta é uma característica que nos foi dada pelo próprio Deus. Pense comigo, a história da humanidade começa no capítulo 1, verso 27 de Gênesis: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”; no entanto, a história recomeça no capítulo 3, versos 20 e 21, quando Deus mesmo prepara vestimentas para Adão e Eva. Logo a seguir temos a humanidade se tornando tão perversa que Deus a destrói, não sem antes recomeçar com Noé (Gênesis 6–9). O capítulo 11 relata sobre a torre de Babel com a arrogância humana, mas o capítulo 12 nos aponta o surgimento do povo de Israel e a promessa do Redentor.
E o ciclo não termina aí. A história de Israel poderia ser resumida assim: “Os israelitas se afastaram de Deus e fizeram o que ele condena. Deus enviou um povo perverso para discipliná-los. Eles clamaram por misericórdia e Deus ofereceu misericórdia”. Os relatos se multiplicam com o homem se rebelando e caminhando para destruição e com Deus oferecendo um recomeço.
Talvez uma das histórias que melhor ilustra essa característica de Deus é a parábola do filho pródigo ou parábola dos dois filhos. O texto de Lucas 15.11-32 é bem conhecido. Um dos filhos pede sua herança (o que em si já era uma ofensa ao pai). Recebendo sua parte, ele desperdiça tudo vivendo de forma corrupta. Contudo, cai em si e retorna pedindo apenas uma posição subalterna na fazenda do pai. Mas o Pai o surpreende (assim como a todos os ouvintes originais) correndo, abraçando e recebendo este filho com todo amor. Repare nas palavras que o pai diz a seus servos para justificar a festa: “Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado” (Lucas 15.24).
Os relatos se multiplicam com o homem se rebelando e caminhando para destruição e com Deus oferecendo um recomeço.
Aqui começa uma nova vida. Este é mais um recomeço divino. Você percebe o eco destas palavras na passagem de Paulo? “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2Coríntios 5.17). O que passou já foi pago. Agora algo novo começa.
Infelizmente a história dos filhos continua e lemos que o filho mais velho se recusa a participar da festa; ao invés disso, confronta o próprio pai afirmando que este é injusto, pois ele merecia muito mais uma festa que o seu irmão mais novo. Sem entender o princípio do recomeço, ele fica agarrado ao seu histórico até ali. Mais uma vez o pai explica como ele está vendo a situação: “Mas nós tínhamos que celebrar a volta deste seu irmão e alegrar-nos, porque ele estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado” (Lucas 15.32).
Enquanto um dos filhos demonstra a alegria do recomeço, o outro fica preso às amarguras de sua vida até então. Nosso Deus está sempre aberto a recomeços, mas nós precisamos aceitar este recomeço. Talvez o mais difícil para aceitarmos o renovo é que nossas conquistas passadas deixam de ter valor. Para o filho mais velho aceitar o recomeço que o pai propunha, ele precisava deixar de lado sua vida de fidelidade como um trunfo, como uma moeda para comprar o favor do pai. O que acumulamos em uma vida longe de Deus não tem nenhum valor para nossa vida com Deus. Nós precisamos abrir mão de nosso passado e nossas conquistas para termos um recomeço verdadeiro.
Nosso Deus é um Deus de recomeços. Ele se mostra sempre disposto a perdoar, a recomeçar. Não sei o que precisa de recomeço em sua vida. Talvez seja um relacionamento que “azedou” e você não sabe como restaurá-lo, talvez seja sua família que parece que não tem mais jeito. Quem sabe é algum pecado repetido, com o qual já luta há tanto tempo que você nem mesmo acredita em suas promessas de mudança. Não importa... Deus te aguarda seja para um primeiro recomeço, seja para o “enésimo” recomeço. Seu amor, sua alegria é sempre como se fosse a primeira vez. Seja neste dia 1º de janeiro, seja em qualquer outra data: minha oração é que você e eu possamos caminhar em novos recomeços, cada vez mais próximos do Senhor.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Ezequias


Ezequias – o Homem Que Confiava em Deus

Wolfgang Bühne
No terceiro ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. 2Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; sua mãe se chamava Abi e era filha de Zacarias. 3Fez ele o que era reto perante o Senhor, segundo tudo o que fizera Davi, seu pai”. 2Reis 18.1-3
O Rei Ezequias é um dos reis de Judá, ao lado de Josias, em cujo reinado Deus concedeu um reavivamento impressionante. Isso aconteceu numa época em que o juízo de Deus já havia sido comunicado ao povo através dos profetas Oséias e Isaías e que se cumpriu através dos babilônios poucas décadas depois da morte de Ezequias.
No entanto, pouco antes do ocaso, Judá teve esse reavivamento espiritual, uma reforma radical e abrangente. É isso que nos relatam os livros de Reis (2Rs 18-20) e de Crônicas (2Cr 29-32), além do profeta Isaías (Is 36-39).
Estima-se que Ezequias reinou nos anos 715-686 a.C. (alguns consideram o período de 726-697 a.C.), em todo o caso, foi a época em que grande parte do Reino do Norte – Israel – devido à sua idolatria, havia sido levado cativo pelos assírios. Assim, era um período de opressão espiritual e de insegurança, com perspectivas de um futuro deprimente.
É interessante observar que, nos livros de Reis e de Crônicas, a vida de Ezequias é relatada sob perspectivas diferentes:
O livro de 2Reis ressalta as reformas políticas e morais implementadas por Ezequias, enquanto 2Crônicas relata detalhadamente sobre a purificação do Templo e o restabelecimento dos cultos, incluindo a festa da Páscoa, aspectos estes que são totalmente omitidos em 2Reis.

Despertamento no fim dos tempos do povo de Deus

A história de Ezequias é especialmente atual e desafiadora porque nós – Igreja do Novo Testamento – nos encontramos igualmente no fim dos tempos. Esta começou notadamente por ocasião do Pentecoste, porém– se observarmos corretamente os sinais dos tempos – atualmente se encontra no último estágio.
Já no Século XVI, Martinho Lutero escreveu um ensaio alertando sobre a apostasia no Cristianismo da sua época.
Já no Século XVI, Martinho Lutero escreveu um ensaio (“Von der babylonischen Gefangenschaft der Kirche” - “Sobre o Cativeiro Babilônico da Igreja”), alertando sobre a apostasia no Cristianismo da sua época. Quanto mais temos motivos hoje para alertar contra as influências liberais, esotéricas e de fanatismo que ocorrem em igrejas que se denominam “evangélicas”!
Mesmo assim, são poucas as personalidades conhecidas que falam em um reavivamento mundial, de uma futura “segunda reforma”, da “transformação” de povos e nações inteiras ao Cristianismo, etc.
Já há vinte anos, o missiólogo C. P. Wagner, que se auto-denomina “apóstolo” do Cristianismo atual – profetizava que, até que ele morresse, haveria “18 milhões de cristãos na Turquia!”[1]
Além disso, não faz tanto tempo que a organização evangélica mundial “AD 2000”, juntamente com a organização católica “Evangelização 2000”, pretendiam oferecer “um mundo majoritariamente evangelizado” como presente a Jesus no Seu 2.000º aniversário.
Naquela época havia vários “profetas” dizendo que “Deus quer que nos preparemos para o maior avivamento de todos os tempos” e , na opinião deles, “esta é a melhor época, de todos os tempos, para viver com Deus”.
Se, porém, analisarmos com seriedade a situação das igrejas que se consideram evangélicas, pelo menos no mundo ocidental, precisamos concluir que, na maioria dos países, o testemunho cristão está extinto ou sob ameaça de extinção.
No entanto, isso não deve ser motivo de resignação. Apesar de que, nas cartas do Novo Testamento, não haja promessas de um avivamento global para os tempos finais, mas uma tendência para a apostasia, mesmo assim Deus pode, a qualquer tempo e em qualquer lugar, promover avivamentos locais e que podem se expandir. É exatamente isso que podemos aprender da história de Ezequias e também de Josias, em cujas épocas – no fim dos tempos de Israel – Deus concedeu esses avivamentos impressionantes e imprevisíveis.
Um exemplo atual da ação de Deus é a China onde, na nossa opinião, estamos observando o maior avivamento de todo o mundo.
Um exemplo atual para isso é a China onde, na nossa opinião, estamos observando o maior avivamento de todo o mundo e que, no entanto, ocorre sem grandes alardes e que talvez nem seja observado pelos próprios cristãos na China, porque eles somente conseguem acompanhar o desenvolvimento espiritual de seu imenso país em âmbito apenas regional. Lá não existem – pelo menos oficialmente – publicações ou informativos cristãos que relatem sobre o avivamento nas diversas províncias e que, por exemplo, apresentem estatísticas sobre o enorme crescimento da chamada “Igreja Subterrânea”.

“Tempestade tropical” inesperada e repentina

É significativo que o avivamento à época de Ezequias, aparentemente, ocorreu sem que tivesse havido um histórico anterior de vida espiritual do povo de Deus. Ao menos não lemos nada sobre reuniões de oração públicas ou secretas que muitas vezes acontecem durante anos antes de um avivamento. Podemos observar isso diversas vezes na história posterior da Igreja, porém, não parece ter sido o caso no fim dos tempos de Israel. Fica a impressão que não havia nenhuma condição de prognosticar esse avivamento, mas que ele lembra uma repentina “tempestade tropical”, como Martinho Lutero, em 1524, a retratou acertadamente e de modo impressionante:
Queridos alemães, comprem enquanto o mercado está com portas abertas; recolham enquanto houver o brilho do sol e tempo bom; aproveitem a graça e a Palavra de Deus enquanto estiver disponível! Saibam isto: A graça e a Palavra de Deus são como uma tempestade tropical e que não volta mais para o lugar onde ela já passou. Ela esteve com os judeus; no entanto, o que passou, passou, agora eles não tem mais nada. Paulo a levou para a Grécia. O que passou, passou; agora eles têm o turco. Roma e a terra latina também a tiveram; o que passou, passou, agora eles têm o Papa. E vocês, alemães, não pensem que a terão para sempre, pois, a ingratidão e o desprezo não permitirão que ela fique. Por isso, apanhem e segurem aqueles que conseguem apanhar e segurar! Mãos preguiçosas devem ter um ano difícil.[4]

Condições desfavoráveis

Ezequias cresceu em um ambiente ímpio. Seu pai Acaz foi um rei extremamente cruel e ímpio. É inimaginável que o seu filho tenha sido preparado com uma formação especial “bíblica” para suas futuras atribuições. Somente a menção expressa do nome da mãe Abi (abreviatura do nome Abijah [“Deus é meu pai]) e do pai desta, Zacarias (“o Senhor lembra”) parecem indicar que, por parte da mãe, pode ter havido uma influência positiva.
Isso seria um grande consolo e um incentivo para as mães que, ao lado de pais não crentes ou não espirituais, educam os filhos para o Senhor e os preparam para que se tornem discípulos de Jesus.
Ainda assim, por razões que nós desconhecemos, o filho do ateu Acaz recebeu o nome “Ezequias” (“Deus é minha força”) quando nasceu e, de fato, Ezequias posteriormente viveu de modo que honrou o nome de Deus – ele confiava em Deus!
Confiou no Senhor, Deus de Israel, de maneira que depois dele não houve seu semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele” (2Rs 18.5).
Esse rei, cuja confiança em Deus não foi superada por nenhum outro rei entre o povo de Deus, de fato, deveria incentivar-nos ao estudo e à imitação!
Outra peculiaridade na vida de Ezequias é que, quando clamou ao Senhor, sua vida foi acrescida de exatos 15 anos. Como confirmação para isso, Deus fez a sombra do relógio solar retroceder 10 graus.
Finalmente Ezequias é um dos poucos reis que, ao término de sua vida, não estava marcado por pecados ou idolatria, mas pelas “boas obras”. Ele não morreu “sem ser encontrado” (como aconteceu com Jorão, um de seus antecessores), pelo contrário, ele foi sepultado com honrarias e na presença de todo o povo (2Cr 32.32-33).

Avivamento sempre ocorre por graça

Destas poucas observações, vistas até agora, podemos aprender que o avivamento sempre é uma manifestação da graça de Deus. Não é possível organizar um avivamento. Não há uma fórmula confiável para tanto, ao contrário do que algumas personalidades, tanto da história recente como da história antiga da Igreja, tentaram comprovar inutilmente.
O avivamento sempre é uma manifestação da graça de Deus. Não é possível organizar um avivamento. Não há uma fórmula.
O avivamento sempre é uma dádiva de Deus. Às vezes é uma resposta de Deus às orações insistentes e intensivas, porém, outras vezes é uma “chuva passageira” não programável. Isso pode nos trazer esperança e nos encorajar, também em nossa época em que as circunstâncias externas e a situação do povo de Deus apontam para qualquer outra coisa, menos para um avivamento.
Preguiça, mornidão, indiferença e conformação ao mundo são características marcantes entre os cristãos na Europa. Livros do mercado evangélico como “Gottesdienst ohne Mauern” (Cultos sem muros”) ou “Die Welt umarmen” (“Abraçar o Mundo”, ambos os títulos em tradução livre) sem querer descrevem a situação atual das igrejas também em nosso país e que foi descrito acertadamente por A.W.Tozer, há mais de 50 anos:
Fomos criados para nos relacionarmos com anjos, arcanjos e serafins, sim, com o próprio Deus que criou a todos – fomos chamados para sermos como águias voando livremente pelos ares, mas que, agora, afundamos a ponto de estarmos ciscando ao lado de galinhas comuns nos quintais das fazendas – isto, assim eu penso, é o pior que poderia ter acontecido a este mundo”.[5]
Ou, ainda, não menos drasticamente:
Uma igreja debilitada arremeda um mundo forte a se divertir com pecados astuciosos – para a sua própria vergonha eterna.[6]
Atualmente, como cristãos, em nossa latitude é mais comum presenciarmos “momentos sublimes de inutilidade” do que algum sinal de avivamento. No entanto, um monte de esterco pode se tornar em adubo para uma grande área de lavoura. Por isso, a história de Ezequias deveria nos encorajar para “esperar grandes coisas de Deus e fazer grandes coisas para Deus”, como disse, fez e vivenciou William Carey, o missionário pioneiro na Índia.
O fim dos tempos nunca deve ser motivo de resignação ou servir de álibi para a indolência. Muito menos serve de calmante para a desobediência!
“Em cada crise há uma oportunidade”. Nos últimos anos ouve-se constantemente essa afirmação, vinda de todas as direções – tanto de políticos como também de executivos economistas. Por isso, o baixo nível espiritual ou as atuais crises nas igrejas deveriam ser um incentivo, não para investir em “piedosas bolhas de ar”, mas para voltar às raízes e aos sólidos fundamentos da nossa fé.

A importância de modelos espirituais

A sabedoria popular diz que “figuras moldam”. Da mesma forma, um modelo pode marcar e influenciar o curso de uma vida. Ezequias tinha um modelo, um parâmetro para sua vida, no qual ele podia e queria se orientar e comparar. Era um modelo que o ajudou a fazer aquilo que era certo aos olhos de Deus:
Fez ele o que era reto perante o Senhor, segundo tudo o que fizera Davi, seu pai” (2Rs 18.3)
Como o seu pai físico, o rei Acaz, era um homem ímpio e, assim, inadequado para marcar positivamente a vida espiritual de seu filho, Ezequias procurou por orientação entre seus antepassados e encontrou Davi, o rei de Israel, o “homem segundo o coração de Deus”.
É uma bênção quando se encontra, no pai físico, um modelo e alguém que orienta nos caminhos de Deus. É o que lemos, por exemplo, no caso do rei Azarias que foi marcado positivamente pelo seu pai Amazias (2Rs 15.3). Sobre Amazias, a Bíblia relata:
Fez ele o que era reto perante o Senhor, ainda que não como Davi, seu pai; fez, porém, segundo tudo o que fizera Joás, seu pai” (2Rs 14.3).
Quando eu era um cristão jovem, fiquei muito impressionado com uma cena que Wilhelm Busch descreveu na biografia de seu irmão: “Johannes Busch – ein Botschafter Jesu Christi” (“Johannes Busch – um Mensageiro de Jesus Cristo”, em tradução livre).
Os dois filhos estavam, em pé, junto ao esquife de seu pai – Wilhelm com 24 anos de idade e Johannes com 16 anos. Eles estavam se despedindo de um homem, o seu amado pai, pastor e famoso evangelista e que foi um brilhante modelo para eles:
Nós dois ficamos por muito tempo, quietos, junto ao esquife. Então nos damos as mãos, ao lado do esquife, numa aliança silenciosa: Queríamos absorver a herança do pai, queríamos amar ao Salvador.[7]
Essa cena é uma ilustração comovedora para as palavras de Provérbios 17.6: “...a glória dos filhos são os pais”.
Que grande bênção é para nossos filhos quando, como pais e mães, podemos lhes deixar tal herança! Provavelmente a maioria dos pais não imagina quão precioso é esse presente que eles proporcionam para toda a vida a seus filhos e filhas, quando estes, já em tenra idade, podem amar e viver com o seu “pai herói”.
Entrementes, minha esposa Ulla e eu nos tornamos avós de um número crescente de netos. Para nós sempre é uma experiência especial quando observamos como os pequenos olham admirados para o seu pai quando ele se destaca em alguma atividade esportiva ou em brincadeiras ou também em suas atitudes durante o dia-a-dia. (Naturalmente, o mesmo é verdade para as mães!).
Temos a convicção que tais experiências são uma influência muito positiva para a saúde espiritual e psicológica dos filhos e, de fato, representam um “adorno” ou “tesouro” de valor inestimável para toda a vida deles.
Hoje há muitos jovens cristãos à procura de modelos na família ou na Igreja e se decepcionam quando não os encontram.
Hoje há muitos jovens cristãos à procura de modelos na família ou na Igreja e se decepcionam quando não os encontram ou não correspondem às suas elevadas expectativas. No entanto, podemos consultar nossa lista de “antepassados espirituais” e estudar as biografias de homens e mulheres cuja vida foi exemplar, desafiadora e orientadora.
Oswald Sanders expressou isso muito bem:
Se estiver certo que podemos conhecer uma pessoa pelos amigos que ela tem, então também é possível reconhecê-la através da leitura de sua biografia, pois ela reflete a sua fome interior e o seu desejo. (...) Para um líder, as biografias sempre são emocionantes porque elas transmitem personalidades. Nenhum outro gênero literário é capaz de transmitir melhores ensinamentos sobre os caminhos de Deus para a sua gente, além da Bíblia. Não é possível ler sobre a vida de grandes homens e mulheres sem que isso provoque entusiasmo e surja o desejo de uma realidade semelhante.[8]
Cito apenas alguns exemplos de como a leitura de diários e biografias influenciou decisivamente a vida de muitos cristãos:
- Os diários de David Brainerd inspiraram e incentivaram, entre outros, a Jonathan Edwards, John Wesley, William Carey, Henry Martyn, David Livingstone e Jim Elliot;
- A biografia de George Whitefield deixou marcas inextinguíveis em C.H. Spurgeon e em Georg Müller;
- Através dos diários de Georg Müller, por sua vez, Hudson Taylor e muitos outros adquiriram ânimo para se dedicar às Missões, unicamente na confiança em Deus;
- E quem consegue contar quantos homens e mulheres, da nossa geração, que foram desafiados a ter uma vida dedicada a Jesus, baseados no diário de Jim Elliot: “À Sombra do Altíssimo”?

O modelo de vida decisivo

Contudo, na avaliação de boas biografias, não devemos e não queremos nos tornar “luteranos”, “calvinistas”, “menonitas”, “wesleyanos”, “metodistas” ou outros “...istas”. Também a vida e a obra desses homens devem apontar para o nosso Senhor Jesus – cuja vida e exemplo deve ser e permanecer como o único “modelo original” perfeito para nossas vidas. Assim como Ezequias não se contentou apenas com os antepassados tementes a Deus, como Asa, Josafá, etc, mas tomou a Davi como modelo, assim também nós – na apreciação de nossos pais e mães espirituais – devemos permanecer “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus...” (Hb 12.2). (Wolfgang Bühne - chamada.com.br)

Notas

  1. C.P. Wagner, Der Herrschaftsbereich der Himmelskönigin, Solingen: Ed Gottfried Bernard, 2001, p.32.
  2. W. Bühne, Die Propheten kommen, Bielefeld: CLV, 2 Ed., 1995, p.135 (comparar toda a explanação p. 135-163).
  3. Rick Joyner, Die Engel, die Ernte und das Ende der Welt, Wiesbaden: Projektion J, 1993, p.22-23.
  4. Martin Luther, An die Ratsherren aller Städte deutschen Landes, dass sie christliche Schulen aufrichten und halten sollen, URL: http://www.lutherhaus-eisenach.de/lutherhaus_lutherzitate.htm (1ª parte) e hhttp://clv-server.de/pdf/fut/206/04.pdf (2ª parte), download em 18/01/2013.
  5. A.W. Tozer, Verändert in sein Bild, Bielefeld: CLV, 2ª Ed. 2012 – Meditação para o dia 16/Jan.
  6. A.W. Tozer, Wie kann man Gott gefallen? , Bielefeld: CLV, 2001, p.50.
  7. Wilhelm Busch, Johannes Busch – Ein Botshcafter Jesu Christi, Wuppertal: Aussaat Verlag, 6ª Ed. 1960, p.67.
  8. Oswald Sanders, Geistliche Leiterschaft, Bielefeld: CMV, 2003, p.96-97.

O Novo Céu


Lothar Gassmann
Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia.” (Apocalipse 21.1)
Haverá novos céus e nova terra. A Bíblia diz claramente que o mundo atual, o atual cosmos hostil a Deus, é passageiro (Mateus 24.35; 1Coríntios 7.31; 1João 2.17; 2Pedro 3.10-13; Apocalipse 6; 8–9; 16; 19–21). Os elementos se fundirão pelo fogo. Surgirá então um novo e maravilhoso mundo que terá dimensões bem diferentes do que nossa realidade conhecida e imaginável. Sua glória será tão imensa que é comparada com uma cidade que possui portas de pérolas e as mais belas pedras preciosas. Palavras humanas conseguem apenas fazer uma alusão a essa glória.
Como será o céu? Podemos dizer algo a respeito? Com muita humildade e com alegre expectativa, menciono as seguintes características:
  • O objetivo é que poderemos ver, amar e servir a Deus (Apocalipse 4–5; 7.15; 22.4);
  • A recompensa que nos aguarda é eterna salvação, alegria e paz (1Pedro 1.9; Apocalipse 7.16-17);
  • O único caminho que conduz ao céu passa por Jesus Cristo, que morreu por nós na cruz do Gólgota (João 14.4; Atos 4.12; 1Coríntios 3.11);
  • Como preparação, devemos buscar pelo reino de Deus e sua justiça, então tudo o mais nos será concedido por sua graça (Mateus 6.33);
  • No céu há uma herança aguardando por nós que jamais perecerá (1Pedro 1.4);
  • Louvaremos a Deus juntamente com todos os anjos (Apocalipse 4–5);
  • Receberemos um novo corpo celestial que será imperecível, puro e repleto de poder (1Coríntios 15.35-58);
  • Estaremos lavados e purificados por meio do sangue de Jesus Cristo, o Cordeiro sacrificado por nós, e teremos vestes brancas (Apocalipse 7.14);
  • O inferno, a morte e o Diabo não poderão nos atingir, nem mesmo enfermidade e sofrimento, fome e sede etc. (1Coríntios 15.55-57; Apocalipse 21.1-4);
  • O céu é um lugar sagrado onde nada impuro pode entrar (Apocalipse 21–22);
  • No céu não haverá lugar para “os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os que cometem imoralidade sexual, os que praticam feitiçaria, os idólatras e todos os mentirosos” – a não ser que eles se converteram para Jesus Cristo e se arrependeram de suas infâmias (Apocalipse 21.8);
  • Para os crentes, vale: seremos reis e sacerdotes de Deus (Apocalipse 5.10);
  • Diante do trono de Deus encontraremos pessoas de todos as tribos, povos, línguas e nações (Apocalipse 7.9);
  • Os vencedores receberão diferentes coroas: a coroa da vida para tentações sofridas (Tiago 1.12), a coroa da alegria para os conquistadores de almas (1Tessalonicenses 2.19), a coroa da justiça para todos os que permaneceram firmes à espera do Senhor (2Timóteo 4.8) e a coroa da fidelidade para todas as testemunhas de sangue de Jesus Cristo (Apocalipse 2.10);
  • A nova Jerusalém, a cidade que veio dos céus, terá a beleza e a pureza que as palavras humanas podem apenas sugerir: ouro, pedras preciosas, portões de pérolas, medidas perfeitas, com o próprio Deus sendo a sua luz (Apocalipse 21–22).
O conhecido pastor Charles Haddon Spurgeon falou acertadamente sobre a glória celestial: “As ruas de ouro pouco nos impressionarão e os sons das harpas dos anjos pouco nos alegrarão em comparação ao Rei no meio do trono. É ele quem atrairá para si os nossos olhares e pensamentos, que despertará nosso amor e levará nossos sentimentos santificados ao nível máximo de infindável adoração. Nós veremos Jesus!”