sábado, 14 de dezembro de 2019

Fazer discípulos


O desafio de fazer discípulos

Daniel Lima
O Brasil tem registrado um aumento significativo no número de pessoas que se declaram evangélicas. Mesmo no sentido mais amplo, evangélico significa seguidor de Jesus segundo os evangelhos. Portanto, era de se esperar que o país mudasse em termos de ética, de moral, de respeito humano. No entanto, para tristeza de qualquer observador, não é isso que acontece. Infelizmente não são raros os casos de indivíduos que se dizem cristãos, mas cuja vida não se distingue em nada de um incrédulo. Onde está o erro? Por que não estamos causando maior impacto em nossa nação? Quero propor que o problema básico está em entender qual a missão que nos foi confiada por Jesus.
Na passagem conhecida por Grande Comissão (Mateus 28.19-20) lemos as seguintes palavras de Jesus:
19Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.
Mesmo em uma leitura superficial entendemos que nossa missão é “fazer discípulos”. Muitas interpretações têm sido aplicadas a este termo ao longo da história da igreja. Atualmente, muito embora não creio que seja intencional, a ênfase parece estar em “fazer membros de minha associação religiosa”. Pastores e igrejas disputam membros e “associados”. O que importa parece ser o número de pessoas que têm se associado às nossas instituições cristãs.
Digo uma vez mais: não creio que seja intencional ou sequer que seja a regra única. No entanto, conforme nossa teologia é invadida por termos como “sucesso” e “relevância” (curiosamente nenhum dos dois termos é encontrado no Novo Testamento), somos igualmente contaminados por uma ideologia de sermos bem-sucedidos e termos relevância diante do mundo. O Novo Testamento usa o critério de fidelidade e não o critério de sucesso. Relevância é consequência desta fidelidade e não alvo de ministério. É óbvio que como pastor eu orava para que meu ministério fosse bem-sucedido e que minha igreja fosse relevante, mas estes não podem ser nossos critérios, nosso padrão de avaliação de um ministério.
O Novo Testamento usa o critério de fidelidade e não o critério de sucesso.
O que significa fazer um discípulo? O que é um discípulo de Cristo? Deixe-me compartilhar contigo o que a Bíblia define como discípulo de Cristo:
  1. Um discípulo obedece ao seu mestre. A passagem de Mateus 28.20 define que devemos ensinar a obedecer ao que Jesus tem ensinado. Ou seja, não basta ensinar o que Jesus ensinou, é necessário auxiliar a pessoa a viver estes princípios. Por exemplo, ensinar que devemos perdoar é muito fácil, mas ensinar como perdoar quem nos ofendeu é algo totalmente diferente. Um discípulo que não aprendeu a obedecer ainda não é um discípulo. Com isso não estou propondo um padrão perfeito, mas uma declaração de propósitos. Meu propósito como discípulo é estar em constante aprendizagem sobre como obedecer a meu mestre.
  2. Um discípulo busca formar novos discípulos. No segundo livro de Paulo ao jovem pastor Timóteo, ele ensina alguns dos elementos fundamentais de um discípulo. Na passagem de 2Timóteo 2.2 lemos: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensiná-las a outros”.

    Paulo realmente esperava que Timóteo passasse a fé, o evangelho a uma próxima geração, que por sua vez passaria à geração seguinte. Um discípulo que não compartilha sua fé ainda não aprendeu a ser discípulo.
  3. Um discípulo será perseguido. Mais uma vez é na segunda carta de Paulo a Timóteo que aprendemos este princípio: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12).

    Isso não significa que devemos buscar perseguição, mas que seremos perseguidos se vivermos de forma piedosa (dedicada a Deus). O mundo não se agradará de nós. Talvez até nos admire, mas não nos suportará. Um discípulo que busca a aprovação do mundo às custas de sua intimidade com Deus ainda não aprendeu a ser um discípulo.
  4. Um discípulo é capaz e preparado para toda boa obra. Na mesma carta Paulo encoraja Timóteo a permanecer naquilo que havia aprendido. Em 2Timóteo 3.16-17 lemos: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra”.

    Mais uma vez isso não significa perfeição, mas um compromisso de serviço de prontidão para desempenhar toda boa obra. Essa prontidão está diretamente ligada ao conhecimento da Palavra de Deus. Podemos afirmar com toda certeza que um discípulo que não está continuamente crescendo no conhecimento da Palavra de Deus ainda não aprendeu a ser discípulo.
Estas são apenas algumas das características de um discípulo. Imagine o impacto que uma multidão de pessoas obedientes a Cristo, evangelizadoras, discipuladoras, dispostas a sofrer e aptas para toda boa obra faria neste mundo! Este é meu compromisso. Reconheço que tenho muito a crescer, mas oro para que nós tenhamos um compromisso de sermos verdadeiramente discípulos de Cristo. A simples membresia em uma igreja, por melhor que esta seja, não faz de ninguém discípulo de Cristo.

Momentos Escuros da Alma


Como lidar com momentos escuros da alma

Daniel Lima
De modo geral, eu não luto com períodos de tristeza prolongada. Minhas “depressões” duram apenas algumas horas. No entanto, eu conheço pessoalmente cristãos sérios que ficam por longos períodos de tempo incapacitados de reagir por um estado mental de profunda desesperança. Houve um ano em minha vida em que eu me deixei levar por amargura (pecado) diante de algo que entendi como ofensa, e as consequências foram noites e dias sem perspectiva, sem esperança, vivendo alheio ao meu Salvador (mais uma vez: pecado).
Em uma destas noites eu acordei no meio da madrugada e minha mente começou a passar um velho e amargo “filme”. No caso, eu revivia uma ofensa e voltava a viver a dor e a indignação. Tentei orar, mas minha mente parecia estar em um beco sem saída. Um pensamento invadiu minha mente após algum tempo: “Eu te amo e meu amor é suficiente!”. O pensamento soou como uma voz em minha mente. Acredito que foi uma intervenção sobrenatural de Deus. Gostaria de dizer que esta é uma experiência normal para mim, mas infelizmente foi uma exceção (muito bem-vinda).
Jesus nos diz que nos traz uma vida em abundância. Isso não significa uma vida sem desafios. A promessa de Deus é uma vida em confiança e na presença dele.
Passei então a “discutir” com o pensamento. Em minha mente eu argumentava: “Pode ser, mas ele (meu ofensor) não podia ter feito isso comigo!”. Novamente o pensamento vinha à minha mente: “Eu te amo e meu amor é suficiente!”. Esse debate continuou por quase uma hora. Até que finalmente me rendi e confessei minha arrogância, minha justiça própria e minha amargura. Repeti (embora não sentisse isso!): “É verdade Senhor, tu me amas e teu amor é suficiente”. Continuei repetindo esta oração enquanto meu coração se rendia mais e mais ao meu Senhor. Foi para mim o princípio de um processo em que fui liberto da cadeia que eu havia permitido que o Diabo criasse para mim.
Não conto este relato para estabelecer um processo de cura de depressão. Sei que este estado mental é algo muito mais complexo. Para mim, esse se tornou um exemplo encapsulado do poder da Palavra em libertar nossa mente desse e de outros processos mentais nos quais nos deixamos aprisionar. Como reagir quando nos damos conta de que estamos em um estado do qual não conseguimos sair? Eu me refiro a pensamentos repetidos e paralisantes. Refiro-me a discussões mentais que se repetem sempre com resultados frustrantes. Refiro-me a “filminhos” em que repito discussões ou revivo meus medos de forma interminável e, em geral, em uma versão piorada da realidade. Deixe-me alistar alguns passos que tenho tomado e que têm me conduzido à liberdade, ainda que, às vezes, ao longo de um processo demorado:
  1. Avalie seus próprios pensamentos. Não se pode julgar uma emoção, mas pode-se avaliar tanto os fatos que a provocaram como as reações que ela provoca. Imagine comigo a seguinte situação: eu ouço uma crítica infundada. Revoltado com a crítica, eu desanimo do que estava fazendo e passo a reagir com ira ou alienação. O sentimento de indignação diante da crítica ou a sensação de injustiça e tristeza é verdadeira, mas a crítica em si não é, e minha reação também não foi correta diante de Deus. Não adianta eu dizer que foi isso que eu senti (verdade) se meu sentimento foi baseado em uma mentira. Essa situação descreve armadilhas que Satanás usa para nos aprisionar (2Timóteo 2.26Jeremias 17.9).
  2. Procure na Bíblia o que Deus tem a dizer sobre esta situação, sobre você. A experiência que descrevi acima não representa algo normal e corriqueiro em minha vida. Em geral o Senhor me leva a procurar e encontrar por mim mesmo as verdades que devem confrontar meu coração. Aquela foi uma exceção pela misericórdia de Deus. Identifique quais verdades em sua vida confrontam as mentiras que aprisionam sua mente (João 8.31-3217.172Coríntios 10.3-5).
  3. Ore com convicção afirmando estas verdades, mesmo que você “não sinta” estas verdades. Com isso não digo para ignorar suas emoções, mas não permita que estas determinem seus pensamentos e reações. Ouvi certa vez uma frase que foi fundamental em minha vida: “O que eu sinto não determina quem eu sou” (Isaías 55.9Romanos 8.31-39).
  4. Procure ajuda. Converse com um cristão mais experiente, converse com seu pastor, procure ajuda profissional cristã e, especialmente, não acredite na mentira de que você vai sair desta sozinho (Hebreus 10.24-25Tiago 5.16).
Jesus nos diz que nos traz uma vida em abundância (João 10.10). Isso não significa uma vida sem desafios (João 16.33). A promessa de Deus é uma vida em confiança e na presença dele. Como somos caídos, com frequência nossa mente se envereda por caminhos em que nos vemos derrotados. Minha oração é que possamos lidar com estas situações baseados na verdade e nas misericórdias de nosso Deus.

No mundo sem ser do mundo


Vivendo no mundo sem ser do mundo

Daniel Lima
Uma nova polêmica atingiu o povo de Deus nesta última semana. A popular provedora de filmes, Netflix, lança na época do Natal dois filmes do grupo “Porta dos Fundos” que satirizam a pessoa de Jesus Cristo. Por um lado, alguns cristãos muito bem-intencionados estão promovendo um movimento de cancelamento de assinaturas por parte dos crentes; por outro, um número de crentes critica os primeiros pois devemos perdoar os que nos ofendem. Enquanto isso, talvez a maioria dos crentes ou não liga ou corre para casa para assistir o conteúdo.
É evidente que a intenção da Netflix e do grupo Porta do Fundos é ganhar dinheiro, por isso procuram oferecer filmes que atinjam os mais altos níveis de audiência. Uma sátira é definida em qualquer dicionário como “uma técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema”. O propósito, apesar de ser meramente econômico, usa da técnica de ridicularizar não só os cristãos, mas Jesus Cristo. Na verdade, este evento demonstra algo que qualquer cristão sério já sabe: há uma conspiração satânica que influencia a cultura em geral a uma postura hostil aos ideais cristãos.
Pessoalmente, estamos avaliando se vamos cancelar nossa assinatura. Com isso não estou odiando a equipe do Portas do Fundo, não estou promovendo um ataque aos escritórios da Netflix e nem sequer entendo que seja uma questão de perdão versus não perdão. O que deveríamos esperar de pessoas que não conhecem o Senhor Jesus? O que devemos esperar de um mundo que jaz no Maligno? Estamos avaliando cancelar, pois não quero contribuir com uma empresa que justamente na época do Natal lança um filme que ridiculariza meu Senhor. O mesmo Senhor que, “pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus” (Hebreus 12.2). Não fiquei pessoalmente ofendido. Vejo apenas um grupo de artistas, brilhantes por sinal, promovendo uma sátira à causa que defendo, ao Senhor a quem amo. Não me sinto bem apoiando-os com minha pequena contribuição.
O que deveríamos esperar de pessoas que não conhecem o Senhor Jesus? O que devemos esperar de um mundo que jaz no Maligno?
O dilema maior para mim, no entanto, não é cancelar ou não a assinatura – inclusive porque não creio que os outros provedores de programas semelhantes sejam necessariamente melhores. Eu creio que como cristãos somos chamados a salgar a terra e iluminar o mundo (Mateus 5.13-16). Isso não significa promover cruzadas e inquisições, cobrando atitudes cristãs de incrédulos; ao mesmo tempo, não significa passividade e silêncio diante de ataques ao cristianismo por medo de parecer retrógrado.
O apóstolo Paulo afirma com clareza que “todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Timóteo 3.12). Eu entendo os filmes do Porta dos Fundos lançados na época do Natal como uma perseguição à minha fé. Se o lançamento deles nesta época não te incomoda, preciso perguntar se você tem vivido piedosamente ou não. A questão central, no entanto, parece ser: como devemos reagir? Há reações equivocadas tanto em protestos como em um silêncio que não aproveita o momento para promover um diálogo ou pelo menos um posicionamento profético.
Central a esta discussão é um trecho da oração sacerdotal de Cristo registrada em João 17.14-17:
14Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. 15Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. 16Eles não são do mundo, como eu também não sou. 17Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.
O texto indica algumas verdades que, creio eu, se aplicam a este debate:
  1. Cristo nos deu sua Palavra. Resta saber se temos preservado e permanecido em sua Palavra ou se temos cultuado e apresentado ao mundo uma outra “palavra”, devidamente adaptada para não ferir os ouvidos sensíveis dos incrédulos.
  2. Cristo nos enviou ao mundo, assim como ele mesmo foi enviado. Cristo não foi enviado para atacar e destruir, mas para resgatar este mundo sem deixar-se contaminar pelas suas filosofias vãs.
  3. Protegidos do Maligno. Não somos do mundo (cuidado para não assumir uma identidade que não é a nossa), mas o mundo é terreno hostil, e nosso inimigo não é o mundo em si, mas o Maligno, o próprio Satanás.
  4. Santificados na Palavra da verdade. O pedido de Jesus é que sejamos santos. O critério de santidade não se resume às nossas opiniões e ao que está na moda (mesmo no mundo dito gospel) – a Palavra é a verdade. Este é o critério de nossa santificação.
Não sei o que você vai fazer com a Netflix, caso seja assinante. Parece-me que momentos assim pedem de nós um posicionamento. Como seguidores de Jesus, nosso posicionamento deve sempre ser resgatador e não “afastador”. Não creio que a Netflix ou o “Porta dos Fundos” ficarão ofendidos com meu cancelamento. Nem é esta minha intenção. Minha intenção é me posicionar como seguidor de Jesus em um mundo caído. E este posicionamento não é tudo que faço para proclamar meu Jesus, é apenas mais um ato, mais uma ação que faço em amor ao meu Deus e amor àqueles que não conhecem a Jesus. Fico atento para que este evento e meu posicionamento pessoal abram portas para conversas resgatadoras. Oro para que nós tomemos posição em amor ao nosso Senhor Jesus Cristo!

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Apóstolos?


Ainda existem apóstolos?

Lothar Gassmann
E ele designou alguns para apóstolos...” (Efésios 4.11)
O termo “apóstolo” significa “enviado” (grego apostelein: “enviar”). Apóstolo é alguém que age por ordem de seu superior e precisa cumprir fielmente a determinação recebida. Isso significa que o apóstolo não age como autônomo, mas em total dependência do seu senhor.
À época do Novo Testamento existia o círculo dos doze: doze apóstolos como representantes das doze tribos de Israel, que era o grupo mais próximo de Jesus. Além desses, houve também outros apóstolos, como Matias, que foi escolhido em substituição ao traidor Judas Iscariotes, bem como Paulo, que viu o Senhor (mesmo que fosse de modo diferente dos outros), e finalmente um grupo de algumas dúzias de homens, que foram enviados em missão para estabelecer a base da igreja cristã. Entre esses “outros” apóstolos além dos doze, havia Barnabé, Apolo, Júnias, Epafrodito, Andrônico, Mateus, Tiago etc.
Os apóstolos originais viveram com Jesus e foram testemunhas da sua ressurreição.
Há uma interrupção na sucessão de apóstolos ou uma ordenação de apóstolos sucessores no Novo Testamento, como alguns agrupamentos afirmam? Claramente, não! Se o apostolado fosse uma instituição permanente, como se explicaria que, após o falecimento dos primeiros apóstolos, nenhum deles foi substituído (no círculo dos doze: exceto a escolha de Matias para substituir o traidor Judas Iscariotes)? Isso teria sido uma leviandade condenável e estaria em contradição com a ordem do Senhor. Obviamente não houve diretriz para que se continuasse a instituir apóstolos. A corrente sucessória, a sucessão do cargo para os primeiros apóstolos, foi interrompida com a morte deles.
Os primeiros mensageiros foram enviados para estabelecer a base da igreja. Apóstolos têm uma função fundamental: eles executam o estabelecimento do alicerce (Efésios 2.20). E quando o alicerce está colocado, outra pessoa continua a construção. Quando um alicerce está colocado, não é possível colocar um outro alicerce sobre o primeiro. Por isso a função de apóstolo foi extinta na primeira geração.
Os apóstolos foram chamados diretamente pelo Senhor – até mesmo Matias, que foi eleito por meio do método de escolha do Antigo Testamento. Matias preenchia os critérios decisivos para um apóstolo, isto é, de ser testemunha ocular (Atos 1.21-26). Ele conheceu Jesus antes e depois da sua ressurreição, algo que ninguém dos supostos “novos apóstolos” das diferentes seitas pode afirmar hoje em dia. Os apóstolos originais viveram com Jesus e foram testemunhas da sua ressurreição.
Os primeiros mensageiros foram enviados para estabelecer a base da igreja. Quando um alicerce está colocado, não é possível colocar um outro alicerce sobre o primeiro.
Paulo também foi chamado diretamente por Jesus, como vemos claramente em Gálatas 1.1. Em Gálatas 1.12 ele fala de uma “revelação” de Jesus Cristo e, em Gálatas 1.16, diz que a Deus agradou “revelar o seu Filho em mim”. Em Gálatas 2, Paulo afirma que não tratou com autoridades humanas, nem com Pedro, o qual ele conheceu apenas três anos após o seu chamado; muito antes, ele foi chamado diretamente por Deus, não instituído por pessoas (isto é, p.ex., por outros apóstolos). Paulo “viu” ao Senhor Jesus (1Coríntios 9.1). Não foi o Espírito Santo, mas foi Cristo quem o chamou, como se fosse “um que nasceu fora de tempo” – como o último (1Coríntios 15.8)!
Resumindo: os primeiros apóstolos eram (1) testemunhas oculares da vida e da ressurreição de Jesus Cristo, ou (2) tiveram um outro chamado direto de Cristo. Em lugar algum a Escritura relata que eles tivessem recebido a incumbência de continuar instituindo apóstolos na “segunda geração”, o que eles de fato não fizeram. Estejamos, pois, alertas e críticos quando hoje aparecem pessoas reivindicando o título de “apóstolos” chamados pelo Senhor! Trata-se de um típico sinal do fim dos tempos (ver 2Coríntios 11.13-15).

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Falsos mestres

Como reconhecer falsos mestres?

Lothar Gassmann
Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos.” (2Timóteo 4.3-4)
A Bíblia previu para nós que haverá um aumento de falsas doutrinas no fim dos tempos. Tais falsos doutrinadores dos últimos dias apresentam as seguintes características:
Nem todas as características correspondem a todas as falsas doutrinas, às vezes são apenas uma ou duas. O número de falsas doutrinas chega a legiões. Uma contagem delas nos levaria ao ilimitado. Cada cristão deve examinar, à luz dos critérios mencionados, onde a igreja está se desviando, para que ele seja preservado e se prepare para o maravilhoso lar junto ao Senhor.

Apedrejamento


Por que Deus permitiu o apedrejamento?

Bobby Conway
Certas partes das Escrituras são mais difíceis de entender do que outras. É o caso das passagens que falam do apedrejamento (ver Levítico 20.2724.16Números 15.32-36Deuteronômio 13.6-11; 21.18-21). Eu posso entender a pena de morte, mas o apedrejamento parece tão bárbaro, cruel e severo, especialmente quando o mandamento é direcionado para pais que acusam filhos rebeldes, como visto em Deuteronômio 21.18-21:
18Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedece ao seu pai nem à sua mãe e não os escuta quando o disciplinam, 19o pai e a mãe o levarão aos líderes da sua comunidade, à porta da cidade, 20e dirão aos líderes: “Este nosso filho é obstinado e rebelde. Não nos obedece! É devasso e vive bêbado”. 21Então todos os homens da cidade o apedrejarão até a morte. Eliminem o mal do meio de vocês. Todo o Israel saberá disso e temerá.
Essa é uma passagem difícil de processar, você não acha? Eu prefiro uma morte por injeção letal, mas apedrejamento? Que bagunça. Como cristãos, como devemos entender esses versículos?
  1. Devemos entender esse texto, como todos os textos, em seu contexto. Não podemos sobrepor nossa compreensão ocidental do século 21 nesse ambiente antigo. Nada trará mais confusão e frustração do que isso. A nossa cultura é uma em que um pequeno golpe causa grandes problemas. Não é de admirar que o apedrejamento seja mais difícil de digerir.
  2. O apedrejamento era o último recurso. O filho descrito nesses versos apresenta um espírito inflexível e rebelde. Ele está mergulhado no pecado, entregando-se livremente à embriaguez e à gula, recusando-se a responder a qualquer disciplina dos pais – ignorando completamente o quinto mandamento. Esses versos descrevem um caso aparentemente sem esperança, onde a pessoa segue o seu próprio caminho; indo contra Deus, seus pais e os princípios da nação teocrática que o rodeia. Ele é um filho “leproso” cujo pecado, se não for controlado, se espalhará e desfará o tecido moral da nação. Depois que os pais percebem a obstinação de seu filho, eles buscam intervenção externa como um recurso final.
  3. O propósito final do apedrejamento era extinguir o mal da comunidade e criar um medo saudável de viver uma vida moral descontrolada. A saúde da nação depende de toda a comunidade andar em sintonia com Deus. Isso não significa dizer que as pessoas não pecavam. Elas pecavam. Muito. E havia todo um sistema de sacrifícios em funcionamento para que as pessoas pudessem obter novamente uma consciência limpa diante do Senhor. O filho descrito nesses versículos não estava buscando uma consciência limpa – sua consciência estava cauterizada.
  4. Esse não era um costume comum. Curiosamente, temos pouquíssimos casos de apedrejamento que ocorrem nos registros bíblicos e não tenho conhecimento de nenhuma evidência extrabíblica de que essa punição tenha sido comumente executada. Talvez sua ameaça tenha sido suficiente para dissuadir as pessoas de tal comportamento REBELDE.
Por fim, Jesus serve como exemplo do coração de Deus em relação ao apedrejamento. Em João 8.7 ele disse àqueles que acusavam a mulher adúltera: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. A lei nos ensina que somos todos infratores. Sob a lei de Deus, todos merecem a pena de morte, mas Jesus a experimentou em nosso lugar, mesmo que ele tenha sido o único a cumprir a lei. Essencialmente, ele foi apedrejado por nós em um ato de amor incondicional ao experimentar a morte em nosso lugar.
Bobby Conway Publicado com permissão do ministério The One Minute Apologist (disponível em: <https://oneminuteapologist.com/blog/why-did-god-allow-stoning/>).

Partidarismo


O efeito destruidor do partidarismo em nossas igrejas

Daniel Lima
“Quem vota em comunista não é cristão!” “Quem apoia este governo apoia tortura e, portanto, não entendeu o evangelho!” Ambas as frases foram retiradas de postagens de pessoas que se dizem cristãs e, indignadas com posturas por elas consideradas absurdas, saem em defesa de suas ideias. Seria inacreditável – se não fosse tão comum – como cristãos partem para o ataque contra outros cristãos em defesa de posições, partidos e pessoas que não têm o mesmo compromisso de vida com nosso Senhor Jesus Cristo.
Por um lado, posturas assim demonstram onde está a esperança de cada um. Se eu me sinto tão ofendido com a postura do outro a ponto de atacá-lo de forma tão passional, é porque o que tenho de mais precioso foi ameaçado. Será que o que temos de mais precioso é nossa posição política? Será que convicções políticas deveriam tomar precedência à nossa fé? Com isso, sendo brasileiro e passional confesso, não quero dizer que não há razão de indignação, de decepção ou mesmo de ira. Meu questionamento é em que momento minha frustração me autoriza a atacar ou passar julgamento sobre outro?
Quero convidá-los a examinar comigo duas passagens do livro de Paulo aos Filipenses. Em primeiro lugar, importa destacar que a cidade de Filipos era uma colônia de ex-soldados romanos. Os filipenses eram considerados cidadãos romanos por decreto imperial e isentos do pagamento de impostos. O status político era de enorme importância nesta cidade. À medida que uma igreja cristã teve início ali (Atos 16) surgiu uma tensão enorme entre os cidadãos que declaravam que César é Senhor e os cristãos que ousadamente firmavam que Jesus é Senhor. O texto que quero estudar primeiramente é verso 27 do capítulo 1:
27Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo, para que assim, quer eu vá e os veja, quer apenas ouça a seu respeito em minha ausência, fique eu sabendo que vocês permanecem firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica...
No verso 27 Paulo começa usando um termo precioso a qualquer cidadão de Filipos: “exerçam a sua cidadania”. Há um debate entre estudiosos se Paulo se referia à cidadania política ou à cidadania celestial. Ambas interpretações parecem possíveis. Por um lado devo exercer minha cidadania como brasileiro de modo digno do evangelho (o que traz alguns desafios e reflexões); por outro lado devo exercer minha cidadania celestial de modo digno do evangelho (o que destacaria outras implicações). 
De qualquer forma, a aplicação imediata que Paulo destaca é seu desejo de ver estes cristãos “num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica”. Infelizmente, o que temos visto são cristãos lutando entre si por partidos, posições e personagens políticos. Nossa causa é uma só, nossa bandeira é uma só. A única causa pela qual devemos lutar é pela fé evangélica. E, muito embora eu entenda que a fé evangélica traz implicações que afetam a política, estas não são elementos fundamentais da fé evangélica!
Temos de tomar extremo cuidado para não acrescentar qualquer outra condição à fé evangélica. Por mais que eu encontre incoerências entre fé evangélica e o socialismo, no momento que eu digo que quem apoia o socialismo não pode ser cristão, estou acrescentando ao evangelho. Por outro lado, por mais que apoiar a tortura seja uma postura contrária ao cristianismo, no momento que acrescento à fé na vida, morte salvífica e ressurreição de Cristo uma rejeição a posturas totalitárias como condição de salvação, estou acrescentando ao evangelho.
Uma unidade de pensar, de amor, de espírito e de atitude só é possível quando existe humildade, consideração e cuidado mútuo.
Podemos lamentar que cristãos não percebam estas incoerências. Na medida do possível podemos e devemos tentar ajudar estes irmãos a corrigir seus caminhos. Mas todo cuidado deve ser tomado para que neste movimento não lancemos fora a essência do que nos exorta o apóstolo: unidade!
O segundo texto vem logo a seguir, quando Paulo continua no capítulo 2, versos de 1 a 4:
1Se por estarmos em Cristo nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, 2completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. 3Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos. 4Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. 
Os cristão de Filipos, e por consequência nós também, foram exortados a demonstrarem sua unidade como testemunho de sua fé em Cristo. Não se trata de uma uniformidade cega, mas da construção de convicções sólidas a partir do senhorio de Cristo. As expressões do verso 2: “mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude” não significam posições impostas por uma liderança, mas conclusões de uma comunidade. O versos 3 e 4 mostram como podemos chegar a uma unidade assim: “... humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros”. Uma unidade de pensar, de amor, de espírito e de atitude só é possível quando existe humildade, consideração e cuidado mútuo.
Paulo continua a passagem estabelecendo qual deve ser nosso modelo: o próprio Senhor Jesus! Nos versos 5 a 11 ele passa a descrever qual é a atitude que devemos cultivar. Isso não deveria nos surpreender. O próprio Jesus nos ensina que “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.35). Nossa unidade não é apenas um acréscimo interessante, não é apenas para que nosso convívio seja agradável. Jesus expressa que nossa unidade é uma das bases do nosso testemunho diante de um mundo perdido.
Temo que os combates do mundo estão começando a invadir a igreja, enfraquecendo nosso testemunho diante dos incrédulos. Ao invés de um amor que surpreende o mundo, estamos lutando entre nós em disputas que imitam o próprio mundo. Uma vez mais sou levado a lembrar das palavras de Jesus: “Pois eu digo que, se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus” (Mateus 5.20).
Eu oro para que cada um de nós exerça sua cidadania terrena ou celestial de modo digno do evangelho. Que o amor que nos une a partir de Jesus seja nosso vínculo da paz. Que, ao enfrentarmos este mundo iníquo, mantenhamos nosso papel profético, mas sem se deixar aliciar por um ou outro lado de ideologias que, em última análise, representam muito mal o evangelho. Que o mundo se surpreenda com o amor que os seguidores de Jesus manifestam uns pelos outros mesmo quando nossas preferências políticas sejam conflitantes!